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Neiva Borges Psicologia Leste Saúde · Mai 2026

A Culpa Materna: O Mecanismo Neurocognitivo do Adoecimento

Neiva Borges

Por Neiva Borges

Psicóloga · Colunista Leste

A culpa não é um instinto biológico, mas um construto neurocognitivo alimentado por expectativas inatingíveis e exaustão sistêmica. Ao contrário do que muitas mulheres foram levadas a acreditar, a culpa materna não nasce simplesmente do amor ou do instinto de cuidado. Ela é construída a partir de uma combinação entre fatores culturais, experiências pessoais e processos cognitivos que moldam a forma como a mulher interpreta seu papel como mãe. Do ponto de vista neurocognitivo, a culpa está associada à maneira como o cérebro processa erros percebidos, responsabilidade e avaliação social. Regiões envolvidas na autorreferência e na regulação emocional participam desse circuito, especialmente quando a mulher interpreta que não está correspondendo às expectativas, sejam elas internas ou externas. O problema central é que essas expectativas, na maioria das vezes, são irreais. A maternidade contemporânea, especialmente para mulheres que também empreendem, lideram ou trabalham fora, está frequentemente associada a um padrão implícito de desempenho perfeito: estar emocionalmente disponível, ser paciente, produtiva, presente, equilibrada e ainda manter desempenho elevado em outras áreas da vida.

Esse acúmulo de exigências cria um cenário de sobrecarga contínua. E, quando inevitavelmente algo não sai como o esperado, como um momento de irritação, uma ausência, um limite imposto, o sistema cognitivo interpreta como falha. É nesse ponto que a culpa se instala. Para a Terapia Cognitivo- comportamental, não é a situação em si que gera a emoção, mas como a interpretamos. A (Acontecimento): O gatilho (ex: o filho doente, a briga entre irmãos, a casa bagunçada). B (Crença/Pensamento): O que você diz a si mesmo (ex: "Se meu filho sofre, a responsabilidade é minha”, "Deveria ser mais paciente", “Eu deveria dar conta de tudo",“Uma boa mãe não falha”). C (Consequência): Como você se sente e age (ex: raiva, explosão,culpa). Com o tempo, esse funcionamento pode levar ao adoecimento emocional. A mulher passa a operar em estado de alerta constante, tentando antecipar erros, evitar frustrações e compensar qualquer percepção de falha. Esse padrão reduz a capacidade de descanso psicológico, aumenta a reatividade emocional e compromete a qualidade da presença, tanto com os filhos quanto consigo mesma. A culpa, nesse contexto, deixa de ser um sinal adaptativo e passa a ser um mecanismo de desgaste. Diante disso, a pergunta central não é como eliminar completamente a culpa- o que seria irreal, mas como regular esse processo de forma saudável.

A solução passa por duas frentes complementares: o desenvolvimento de estratégias de regulação emocional e o resgate da identidade individual para além da função parental. No campo da regulação emocional, o primeiro passo é: Ao sentir o pico emocional, faça uma pausa e identifique o pensamento. Questione: "Este pensamento é um fato ou uma interpretação baseada no cansaço?" Reconheça que nem todo pensamento é um fato. Muitas interpretações que geram culpa são distorções cognitivas, ou seja, formas imprecisas de avaliar a realidade. Um exemplo, transformar um episódio isolado de irritação em uma conclusão global como “sou uma mãe ruim” é uma generalização que intensifica o sofrimento. Aprender a identificar e questionar esses padrões de pensamento permite reduzir a intensidade emocional associada a eles. Outro ponto fundamental é o desenvolvimento da autocompaixão. Em vez de responder aos próprios erros com crítica e punição interna, a mulher pode aprender a responder com compreensão e responsabilidade equilibrada. Isso não significa negligenciar falhas, mas contextualizá-las dentro de uma realidade humana e imperfeita. A regulação emocional também envolve o reconhecimento dos limites fisiológicos. Privação de sono, sobrecarga e estresse crônico impactam diretamente a capacidade de autorregulação. Cuidar do próprio corpo não é um luxo, mas uma condição básica para sustentar o cuidado com o outro.

Paralelamente, é essencial resgatar a Identidade individual. Um dos fatores que intensificam a culpa materna é a fusão entre identidade e função. A fusão com o papel parental acontece quando os valores pessoais são substituídos inteiramente pelas obrigações do cuidado. Diferenciação entre "Papel" e "Pessoa". O papel de cuidadora é algo que você faz, mas não é tudo o que você é. O resgate exige a reativação de áreas da vida que ficaram "adormecidas". Resgatar a identidade significa reconhecer que ser mãe é uma parte importante da vida, mas não a totalidade dela. Isso inclui você se reconectar com interesses pessoais, valores, projetos e aspectos da própria individualidade que não estão diretamente ligados à maternidade. Esse movimento não diminui o vínculo com os filhos, ao contrário, tende a torná-lo mais saudável, pois reduz a sobrecarga emocional depositada nessa relação. Estabelecimento de Limites Funcionais Aprender a dizer "não" ou "agora não" para as demandas não essenciais dos filhos (dentro do que é seguro e adequado à idade) é fundamental para preservar a saúde mental. Isso ensina à criança que as outras pessoas também têm necessidades e limites. Qual dessas áreas- a regulação do estresse no momento do gatilho ou a reconexão com seus antigos interesses-parece ser o desafio mais urgente para você hoje? Porque cuidar do outro não deve significar abandonar a si mesma. NEIVA BORGES PSICOLOGIA BASEADA EM EVIDÊNCIAS - TCC (TE.DBT.ACT)

Publicado em Leste Saúde · Maio 2026
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