POR MÔNICA ALMEIDA Descubra por que a busca pelo amor-próprio pode ser uma armadilha e como abraçar sua totalidade psíquica com segurança. "O autoamor que te venderam é, na verdade, uma forma refinada e perversa de abandono de si mesmo." Como psicóloga especialista em autoestima, observo diariamente consultórios lotados de pessoas exaustas por tentarem, incansavelmente, 'se amar'. Vivemos em uma era onde a felicidade se tornou uma métrica de performance e a tristeza, uma falha de caráter. Fomos convencidos de que, se não estivermos vibrando em gratidão e autoconfiança inabalável, estamos falhando em nossa evolução pessoal. Mas a verdade é que essa busca frenética pela 'melhor versão de si' criou um novo tipo de sofrimento: a tirania da positividade. Quando falamos de autoestima na cultura pop, geralmente falamos de rituais estéticos, afirmações no espelho e uma vigilância constante sobre as próprias falhas. No entanto, essa abordagem ignora a complexidade do psiquismo humano. O que chamam de amor-próprio hoje é, muitas vezes, uma máscara para a negação da sombra. Ao tentarmos ser apenas luz, empurramos nossas dores, traumas e imperfeições para um porão escuro, criando um abismo psíquico onde a desconexão conosco se torna a regra. Mito vs. Verdade: A Armadilha da Disciplina Um dos grandes pilares dessa ditadura é a ideia de que a disciplina rígida é a cura para a procrastinação e a falta de confiança. Existe um mito perigoso circulando: 'se você não faz o que planejou, falta força de vontade'. Como profissional, preciso ser enfática: a autodisciplina sem autocompaixão é apenas o chicote interno que perpetua o ciclo de sua paralisia emocional. Quando você se força a agir ignorando seu estado emocional, você está repetindo o trauma do abandono. Você está dizendo a si mesmo que seu valor depende apenas do que você produz, e não de quem você é. A procrastinação não costuma ser preguiça; é um mecanismo de defesa contra o medo do julgamento ou a pressão insuportável da perfeição. Sem o acolhimento da dor que paralisa, o chicote da disciplina só gera mais resistência e esgotamento. Por que agora? A Patologização do Sentir Por que este tema é tão urgente hoje? Porque estamos perdendo a nossa humanidade em nome de uma funcionalidade robótica. Em uma era de performance emocional, a tristeza foi patologizada. Estar triste virou sinônimo de estar doente. Estar confuso virou sinônimo de estar 'desalinhado'. Essa pressão transformou seres humanos em máquinas de fingimento exaustas e desconectadas de sua verdade profunda.
A ditadura da autoestima exige que sejamos constantes, mas a psique é cíclica. Temos estações. Há momentos de expansão e momentos de recolhimento. Ao tentarmos forçar um verão eterno em nossas emoções, impedimos que o outono faça a limpeza necessária e que o inverno traga a reflexão e o descanso. O resultado é uma sociedade de indivíduos que se sentem impostores em suas próprias vidas, sorrindo para a câmera enquanto desmoronam internamente por não atingirem o ideal inalcançável do amor- próprio comercial. Acolhendo a Totalidade Psíquica Abraçar a totalidade psíquica significa aceitar que você é um ser de contrastes. Você pode ser corajoso e, ao mesmo tempo, sentir um medo paralisante. Você pode ter orgulho das suas conquistas e ainda carregar uma ferida de insuficiência. A saúde mental não reside na ausência desses conflitos, mas na capacidade de sustentá-los sem se fragmentar. A verdadeira autoestima não nasce da convicção de que somos perfeitos, mas da segurança de que não seremos abandonados por nós mesmos quando falharmos. Dica de Ouro: A Presença que Cura Se você busca um caminho de volta para si, minha dica de ouro é: pare de tentar consertar sua criança interior. Passamos anos tentando 'curar' traumas como se estivéssemos removendo peças defeituosas de uma engrenagem. A criança que habita em você não precisa de conserto; ela precisa de testemunho. Apenas ofereça a ela a presença segura que você não teve, permitindo que a dor flua sem julgamento. Quando a tristeza surgir, em vez de combatê- la com frases motivacionais, sente-se com ela. Diga a si mesmo: 'Eu vejo você. Está tudo bem sentir isso agora'. Esse espaço de não- julgamento é onde a integração acontece. A cura não vem da mudança do que sentimos, mas da mudança da nossa relação com o que sentimos. É no acolhimento da nossa vulnerabilidade que a confiança real, aquela que não precisa de palco, finalmente encontra solo para crescer.
Provocações para você levar com calma Quero encerrar te deixando com duas perguntas que não são para serem respondidas rapidamente. São para serem sentidas: ØSe você parasse de perseguir a perfeição agora, qual parte de você finalmente teria permissão para respirar? ØVocê está, de fato, se amando… ou está tentando se tornar alguém mais fácil de ser aceita? Não deixe que a indústria da autoajuda te convença de que você é um projeto a ser otimizado. Você é um mistério a ser vivido. A verdadeira liberdade psíquica começa quando você desiste de ser perfeito para se tornar inteiro. Saia do abismo da comparação e da performance e retorne para a segurança do seu próprio abraço, com todas as suas sombras e luzes. É nesse lugar de honestidade radical que a vida, enfim, ganha cor e sentido. Mônica Almeida – Psicóloga e Mentora de Mulheres 30+ Especialista em Autoestima e Confiança