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Ane Teixeira Gestão do Cuidado Leste Saúde · Mai 2026

A Gestão Invisível: Quem Cuida de Quem Cuida?

Ane Teixeira

Por Ane Teixeira

Técnica de Enfermagem | Gestão do Cuidado | Direcionamento 60+ · Colunista Leste

Antes mesmo de o dia começar, em muitas casas, alguém já está em funcionamento. Não estamos falando de despertadores, Existe algo que aprendi observando de perto compromissos ou agendas corporativas. a rotina de muitas famílias: quase sempre, Estamos falando de uma mulher.

Muitas enquanto alguém recebe cuidado, existe vezes uma mãe. Em outros casos, uma filha, outra pessoa sustentando silenciosamente uma esposa, uma irmã ou simplesmente toda a estrutura que a doença desorganizou. aquela pessoa que, sem perceber, passou a ocupar o lugar de sustentação de toda uma E, na maioria das vezes, essa pessoa é uma família. mulher.

Sem treinamento. Sem preparo emocional. Sem escala de descanso. Sem Enquanto a casa ainda está em silêncio, a alguém perguntando se ela também está mente dela já começou o dia. O horário do conseguindo suportar. próximo remédio.

A consulta marcada. O exame que precisa ser buscado. A receita De forma silenciosa, ela se torna a agenda da médica que não pode ser esquecida. A fralda casa, a memória da família, a pessoa que que está acabando.

O retorno com o sabe onde estão os exames, qual medicação especialista. A alimentação de quem está em está acabando, qual consulta foi remarcada, recuperação. A organização da casa. As qual sintoma mudou e qual orientação mensagens não respondidas.

Os médica não pode ser esquecida. documentos. Os detalhes. As urgências que quase ninguém vê. Ela administra horários, organiza documentos, resolve transportes, Quando alguém da família adoece, é natural acompanha sinais clínicos, observa que toda a atenção se volte para o paciente. mudanças de comportamento, prepara Isso faz parte do cuidado, da preocupação e alimentação, ajusta a rotina e, ao mesmo do amor.

Mas, ao longo da minha trajetória tempo, tenta manter o equilíbrio emocional acompanhando internações, transições de todos ao redor. hospitalares e cuidados domiciliares. O PRONTUÁRIO FICA NO HOSPITAL.

MAS, MUITAS VEZES, A RESPONSABILIDADE CONTINUA DENTRO DE CASA. Com o tempo, essa sobrecarga começa a aparecer de formas que nem sempre são percebidas. Não costuma surgir em exames laboratoriais, nem em relatórios clínicos, mas aparece no olhar cansado, no corpo que continua funcionando mesmo exausto, na mulher que resolve tudo e ainda sente culpa quando pensa em parar.

Será que o remédio foi dado? Será que ainda tem gaze? Muitas aprenderam desde cedo que cuidar é Será que alguém confirmou a consulta? suportar. Que amar é aguentar. Que ser forte Será que os documentos estão separados?

Será que, se eu parar, tudo vai desorganizar? significa não reclamar. E é exatamente aí que mora um dos maiores perigos. Essa não é apenas uma rotina intensa. Isso O problema nunca esteve no amor que move tem nome: carga mental.

E quando essa tantas mulheres a cuidarem de quem amam. carga se prolonga por semanas, meses ou O que, muitas vezes, começa a adoecer é a até anos, sem apoio verdadeiro, sem divisão centralização de responsabilidades que real e sem rede de suporte, ela deixa de ser deveriam ser compartilhadas.

Porque o amor apenas cansaço e passa a se tornar acolhe, protege, organiza e sustenta. Mas adoecimento. quando esse cuidado passa a depender exclusivamente de uma única pessoa, o corpo NEM TODA MULHER QUE DIZ “EU DOU cobra, a mente cobra e as emoções também.

CONTA” ESTÁ BEM. Esse tipo de exaustão quase nunca faz No mês das mães, entre homenagens, barulho. Ele aparece no café que esfria sobre a flores, mensagens e fotografias, talvez mesa porque ela esqueceu de tomar.

No também seja tempo de olhar para aquilo almoço engolido com pressa. Na água que quase nunca aparece. Porque muitas esquecida ao lado da pia. No sono mães não estão apenas exercendo afeto. interrompido.

Na cabeça que deita, mas não consegue desligar. Elas estão gerindo horários, sintomas, exames, consultas, receitas, alimentação, logística familiar, esquecimentos alheios e, muitas vezes, até o equilíbrio emocional de toda uma casa.

E isso não pode continuar sendo tratado como algo normal. Dividir o cuidado não é oferecer ajuda quando sobra tempo. Dividir o cuidado é assumir responsabilidade de verdade. É saber os horários dos medicamentos sem precisar perguntar.

É acompanhar consultas. É compreender orientações médicas. É participar das decisões. É assumir funções sem que alguém precise pedir. Família não deveria ser uma mulher sobrecarregada cercada de pessoas bem- intencionadas.

Ao longo da minha experiência na assistência, aprendi que quase sempre existe alguém sustentando silenciosamente aquilo que todos acreditam estar funcionando sozinho. E quase sempre essa pessoa também está cansada, mesmo quando continua sorrindo, resolvendo e dizendo que está tudo bem.

Neste Dia das Mães, talvez a homenagem mais verdadeira não esteja apenas nas flores, nas mensagens ou nas fotos publicadas. Talvez esteja no reconhecimento. Na presença. Na divisão real das responsabilidades.

Na capacidade de perceber que quem cuida também sente, também se esgota e também precisa de suporte. Porque cuidar é um ato de amor. Mas ninguém deveria carregar esse amor sozinho por tempo demais. QUEM CUIDA TAMBÉM PRECISA SER CUIDADA. ENF. ANE TEIXEIRA SAÚDE PREMIUM & GESTÃO DO CUIDADO

Publicado em Leste Saúde · Maio 2026
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