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Lorena Dal Bello Analista Junguiano Editora do Leste · Jun 2026

Amor ou Projeção?

O que sentimos pelo outro nem sempre tem a ver com ele

Lorena Dal Bello

Por Lorena Dal Bello

Psicóloga · Colunista Leste

E se o que você chama de amor for, na verdade, um espelho e a pessoa do outro lado nunca tenha sido quem você pensou que era?

Quando nos apaixonamos, raramente estamos vendo a pessoa diante de nós. Com frequência, estamos vendo uma imagem que colocamos sobre ela, uma imagem que pertence ao nosso próprio mundo interior ainda não descoberto.

O que é a Sizígia?

Na astronomia, Sizígia descreve o alinhamento perfeito entre três astros: sol, lua e terra. Jung tomou emprestado esse termo para nomear o par arquetípico interior formado pela Anima e pelo Animus: as imagens do feminino e do masculino que cada pessoa carrega dentro de si. Quando esse par interno não é reconhecido e integrado, ele se projeta para fora e é aí que começa a tirania: buscamos no outro o que ainda não encontramos em nós mesmo, exigindo do relacionamento uma completude que só o autoconhecimento pode oferecer.

A Tirania da Sizígia nos Afetos Modernos

Uma análise sobre como a inflação do ego e a projeção arquetípica sabotam o equilíbrio emocional, especialmente nos momentos em que a pressão social por pares perfeitos está no seu pico.

O parceiro que idealizamos antes de conhecê-lo

Cada pessoa carrega consigo uma parte que prefere inconscientemente não ver: medos escondidos, desejos que julga errados, qualidades que nunca se permitiu ter.

Quando não olhamos para esse lado de nós mesmos, ele encontra outro caminho e esse caminho, com frequência, passa pelos relacionamentos afetivos.

O resultado é que o parceiro deixa de ser percebido como um indivíduo real e passa a carregar o peso daquilo que ainda não integramos em nós. Amamos a imagem que criamos; toleramos a pessoa. Esse é o fundamento silencioso de muitos relacionamentos que, à primeira vista, parecem intensos e apaixonados.

A figura interna que buscamos no outro. O “tipo” pelo qual sempre caímos

Dentro de cada um de nós existe uma imagem interna do que buscamos no amor: formada na infância, moldada pelos pais, pelas primeiras figuras de cuidado e pelas histórias que ouvimos antes mesmo de entender o que era relacionamento. Essa imagem não pede licença: ela age por baixo das escolhas que achamos que estamos fazendo conscientemente.

No livro Parceiros Invisíveis, o autor John Sanford mostra como projetamos essa figura interior sobre pessoas reais e como isso é, ao mesmo tempo, inevitável e arriscado. Inevitável porque é assim que o amor começa: sentimos no outro a ressonância de algo profundamente nosso. Arriscado porque, quando a realidade da pessoa aparece e sempre aparece, a decepção pode ser enorme. Não porque ela mudou, mas porque nunca foi quem imaginamos.

Sanford observa que um amor mais maduro só se torna possível quando começamos a enxergar o ser humano concreto diante de nós, com todas as suas limitações, contradições e diferenças. Esse processo não enfraquece o amor: pelo contrário, o aprofunda.

Perspectiva Clínica · Parceiros Invisíveis

Os padrões que se repetem

Por que você continua se apaixonando pela mesma pessoa?

Se você percebe que se apaixona sempre pelo mesmo perfil: o distante, o que precisa ser salvo, o que nunca está completamente disponível, isso não é coincidência nem falta de sorte, muito menos o famoso “dedo podre”. É um padrão inconsciente em funcionamento, geralmente enraizado na relação que tivemos com nossos pais ou cuidadores na infância. Esse padrão age como um roteiro invisível: ele filtra as pessoas, amplifica certos sinais e nos mantém presos numa busca de completar no parceiro o que não recebemos quando éramos pequenos. O ciclo só se interrompe quando conseguimos enxergar o padrão e começamos a fazer perguntas diferentes sobre nós mesmos.

O caminho para se conhecer

Tornar-se quem você é, antes de buscar quem falta.

A psicologia analítica propõe um caminho que começa por dentro: antes de encontrar o parceiro certo, trata-se de se tornar disponível para um encontro real. Isso significa ir ao encontro das próprias sombras, reconhecer os próprios padrões e construir uma relação mais honesta consigo mesmo.

Isso não significa se fechar ou se bastar. Significa ser capaz de amar sem se perder, de escolher com mais consciência, de permanecer sem desaparecer. Parceiros Invisíveis reforça que esse caminho passa necessariamente pelo autoconhecimento, seja pelas ferramentas de análise, pelos sonhos, pela espiritualidade, pela criatividade ou pela simples disposição de se olhar com honestidade.

“Se você se apaixona pelo mesmo perfil sistematicamente, não se trata de destino, trata-se de uma parte sua ainda à espera de ser encontrada.”

Junho, o Dia dos Namorados e a pressão por um amor perfeito

Junho traz uma pressão cultural específica: o Dia dos Namorados, as redes sociais cheias de casais ideais e a sensação de que todo mundo encontrou alguém, menos você. Para quem já carrega padrões emocionais não resolvidos, esse ambiente amplifica a angústia: o vazio interno se intensifica, e a busca por um parceiro ideal se torna quase compulsiva.

Clinicamente, esse período tende a aumentar as crises de identidade e os momentos em que o ego, incapaz de tolerar a sensação de incompletude, busca desesperadamente validação no outro. O antídoto não está em encontrar a pessoa certa, mas em se tornar disponível para um encontro real, o que começa, sempre, por dentro.

Publicado em Editora do Leste · Junho 2026
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