Você acorda cansada, passa o dia inteiro tentando acompanhar as demandas da rotina e, quando finalmente chega a hora de descansar, o sono não vem. No dia seguinte, tudo se repete. Muitas mulheres passam anos acreditando que isso é apenas estresse, ansiedade ou falta de organização. Entretanto, para uma parcela significativa delas, existe uma explicação que a neurociência vem demonstrando cada vez mais: a sobrecarga do cérebro neurodivergente.
Neurodivergência é um termo utilizado para descrever cérebros que funcionam de maneira diferente do padrão considerado típico. Pessoas autistas, com TDAH, dislexia, altas habilidades e outras condições processam informações, emoções e estímulos de formas particulares. Isso não significa um cérebro pior ou melhor, mas um cérebro diferente.
A neurociência mostra que essas diferenças acontecem porque algumas redes neurais apresentam padrões distintos de funcionamento. Áreas responsáveis pela atenção, processamento sensorial, controle emocional e funções executivas podem trabalhar com intensidades diferentes. Como consequência, tarefas que parecem simples para outras pessoas exigem muito mais energia cerebral.
O cérebro como computador sobrecarregado
Imagine que o cérebro seja um computador. Algumas pessoas possuem dezenas de programas funcionando ao mesmo tempo. O cérebro neurodivergente frequentemente recebe uma quantidade muito maior de informações simultaneamente. Sons, luzes, cheiros, conversas paralelas, texturas das roupas, expressões faciais e mudanças na rotina chegam ao cérebro quase ao mesmo tempo e precisam ser organizados. Esse processamento intenso aumenta o consumo de energia mental.
O mascaramento social
Outro fator importante é o chamado mascaramento social (masking). Muitas mulheres neurodivergentes aprendem, desde pequenas, a esconder suas dificuldades para serem aceitas. Elas treinam contato visual, ensaiam expressões faciais, monitoram o tom de voz, observam o comportamento dos outros e tentam responder da maneira considerada adequada. Tudo isso acontece enquanto realizam suas atividades diárias.
O problema é que manter essa adaptação constante cobra um preço elevado.
Na neurociência, existe um conceito chamado carga alostática. Trata-se do desgaste acumulado que o organismo sofre quando permanece muito tempo tentando se adaptar ao estresse. O cérebro libera hormônios como cortisol e adrenalina para responder às demandas do ambiente. Quando essa ativação acontece continuamente, o organismo entra em um estado de alerta prolongado, favorecendo sintomas físicos e emocionais.
É por isso que muitas mulheres neurodivergentes sentem um cansaço que não melhora apenas com uma boa noite de sono. O descanso físico acontece, mas o cérebro continua tentando se recuperar de dias, semanas ou até anos de sobrecarga.
Os sinais que o corpo envia
Os primeiros sinais costumam ser discretos: irritabilidade, dificuldade para se concentrar, sensibilidade exagerada a barulhos, luzes ou roupas apertadas, vontade frequente de ficar sozinha, esquecimentos, crises de choro aparentemente sem motivo e sensação constante de estar "sem bateria". Em alguns casos, aparecem dores de cabeça, tensão muscular, problemas gastrointestinais e insônia.
Uma pergunta importante é: você se sente mais cansada depois de um encontro social do que depois de um dia inteiro de trabalho físico?
Se a resposta for sim, vale a pena observar esse padrão. Para muitas pessoas neurodivergentes, a interação social exige um esforço cognitivo enorme. Interpretar expressões, compreender regras sociais implícitas, controlar impulsos e monitorar comportamentos pode ser extremamente desgastante.
Outro exercício útil é criar um "mapa de energia". Durante duas semanas, registre quais situações deixam você mais exausta. Observe horários, ambientes, pessoas presentes, intensidade dos sons, quantidade de estímulos e como seu corpo reage. Frequentemente surgem padrões que ajudam a identificar quais fatores estão consumindo sua energia.
Isso não significa que toda pessoa cansada seja neurodivergente. Existem diversas condições médicas e psicológicas que também provocam fadiga, como distúrbios do sono, alterações hormonais, depressão, ansiedade e outras doenças. Por isso, a avaliação profissional é fundamental.
Para refletir
A boa notícia é que existem estratégias capazes de reduzir significativamente essa sobrecarga. Respeitar pausas durante o dia, diminuir a exposição a ambientes muito barulhentos quando possível, utilizar recursos que minimizem estímulos sensoriais, organizar rotinas previsíveis, dormir adequadamente e aprender a reconhecer os próprios limites são medidas que ajudam o cérebro a gastar menos energia.
Além disso, desenvolver autoconhecimento faz toda a diferença. Quando a pessoa compreende como seu cérebro funciona, deixa de interpretar suas dificuldades como preguiça, fraqueza ou incompetência. Em vez de lutar contra si mesma, aprende a construir estratégias compatíveis com seu funcionamento.
Nesse processo, o acompanhamento terapêutico desempenha um papel essencial. A terapia oferece um espaço seguro para compreender padrões de comportamento, desenvolver recursos emocionais, fortalecer a autoestima e construir formas mais saudáveis de lidar com as demandas da vida. Também auxilia na identificação dos sinais precoces de sobrecarga, prevenindo quadros de burnout e esgotamento emocional.
Buscar ajuda não é sinal de incapacidade. Pelo contrário: é uma atitude de autocuidado baseada no conhecimento científico sobre o funcionamento do cérebro.
Se você se identificou com este texto ou conhece alguém que vive constantemente cansada sem encontrar uma explicação, talvez seja o momento de olhar para essa experiência com mais curiosidade e menos culpa.
Como Psicanalista Clínica, palestrante e estudiosa da neurodivergência, meu propósito é levar informação acessível, acolhimento e ferramentas práticas para que mais pessoas compreendam seu funcionamento e recuperem qualidade de vida. Em meus atendimentos, utilizo uma abordagem humanizada voltada ao autoconhecimento, à regulação emocional e ao fortalecimento da autoestima. Também ministro palestras e encontros educativos sobre neurodivergência, saúde emocional e desenvolvimento humano para empresas, instituições e grupos.
O seu corpo fala antes mesmo que sua mente consiga colocar em palavras aquilo que está vivendo. Escutar esses sinais pode ser o primeiro passo para transformar exaustão em compreensão, culpa em acolhimento e sobrevivência em qualidade de vida.
Até o próximo mês.
Publicado em
Revista Freudiana do Leste · Julho 2026