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O que a primavera revela sobre os seus ciclos internos

A primavera como convite para respeitar os próprios ciclos internos.

Set 2026
6 min de leitura
Lorena Dal Bello

Por

Lorena Dal Bello

Psicóloga

Olhe pela janela. As árvores estão florindo, as ruas ganham cor, tudo ao redor parece dizer: é hora de recomeçar. E você, como está por dentro? setembro é o mês da primavera e também o mês do Setembro Amarelo, dedicado a falar sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Duas coisas que, à primeira vista, parecem opostas, uma estação de flores e um mês de conversas difíceis, mas que, na verdade, dizem respeito à mesma pergunta: você tem se permitido viver o seu próprio tempo, ou está tentando florescer no tempo dos outros? Lorena Dal Bello Quando foi a última vez que você atravessou o seu inverno? Pense em algum período recente em que você se sentiu mais recolhida. Cansada, sem vontade, talvez até um pouco perdida. Como você tratou a si mesma nesse momento? Com paciência, ou com cobrança? A psicologia analítica enxerga esses momentos de recolhimento não como falhas, mas como parte de um movimento natural. Assim como a natureza não vive em primavera permanente, nós também não deveríamos viver cobrando de nós mesmos uma alegria e uma produtividade constantes. Existem fases de recolhimento e fases de expansão. E ambas têm função. A pergunta que fica é: você tem se dado permissão para atravessar seus invernos sem se punir por isso? Ou tem cobrado de si mesma um florescimento o tempo todo, mesmo quando por dentro ainda é inverno? Aqui está algo que talvez você já tenha sentido, mesmo sem saber nomear: a frustração de ver o mundo lá fora em plena renovação, enquanto por dentro nada parece se mover. Quantas vezes você já se cobrou para "estar melhor" só porque todo mundo ao seu redor parecia estar em movimento? E quantas vezes essa cobrança só fez você se sentir pior, mais atrasada, mais "inadequada"? Vale a pena se perguntar: de onde vem essa pressa? Ela é realmente sua, ou é uma expectativa que você absorveu de for, do calendário, das redes sociais, das pessoas ao seu redor? Processos internos de verdade, como sair de um luto, reconstruir a autoestima ou tomar uma decisão importante raramente respeitam datas. Eles têm o próprio tempo. E talvez a pergunta não seja "por que ainda não floresci?", mas "o que eu ganharia se parasse de me cobrar por isso?".

C a r l J u n g A primavera da alma: o que diz a psicologia analítica Carl Jung, ao longo de décadas observando pacientes e estudando símbolos de diferentes culturas, percebeu algo curioso: em praticamente todas as tradições humanas, as estações do ano aparecem associadas a estados internos. Inverno como “morte”, as vezes o processo de depressão e recolhimento. Primavera como renascimento. Verão como plenitude. Outono como colheita e desapego. Para ele, isso não era coincidência nem apenas poesia era um sinal de que a psique humana funciona de forma cíclica, e não linear. Isso contraria uma idéia muito comum: a de que devemos evoluir sempre para frente, sempre para cima, numa linha reta de melhora contínua. Jung propunha outra imagem: a da espiral. Vivemos os mesmos temas os mesmos medos, as mesmas feridas, os mesmos anseios repetidas vezes ao longo da vida, mas cada vez em um nível diferente de compreensão. É como se atravessássemos o mesmo inverno várias vezes, mas, a cada volta, saíssemos dele um pouco mais inteiras. A esse processo contínuo de amadurecimento, ele deu o nome de individuação: tornar-se, aos poucos, mais integralmente quem realmente se é. Nesse sentido, a primavera funciona como o que Jung chamava de símbolo uma imagem que carrega um significado maior do que ela mesma. A flor que rompe a terra depois do frio não representa apenas a estação; ela representa algo que todos nós reconhecemos internamente, sobre esperança, sobre continuidade, sobre a possibilidade de que aquilo que parecia morto ainda guarda vida dentro de si. Não é à toa que, em tantas mitologias, o renascimento nunca vem sem antes passar por uma travessia difícil. A mensagem por trás desses mitos é notavelmente parecida com o que a saúde mental nos ensina hoje: não existe florescimento sem antes ter atravessado algum tipo de escuridão.

Há ainda outro ponto importante nessa perspectiva: os invernos internos guardam conteúdos que preferimos não olhar tristezas antigas, raivas não expressas, partes de nós que julgamos inadequadas e escondemos até de nós mesmas. Jung chamava essas partes de sombra. E um dos motivos pelos quais tantas pessoas sofrem tanto durante seus períodos de recolhimento é que, além da dor em si, ainda existe a vergonha de sentir aquela dor, o medo de mostrá-la, a sensação de que deveriam estar bem e não estão. Curiosamente, é justamente esse silêncio em torno do sofrimento mais do que o sofrimento em si que costuma agravar quadros de depressão e ideação suicida. O S e t e m b r o A m a r e l o É aqui que essa perspectiva se comunica diretamente com o Setembro Amarelo. A campanha existe porque, durante muito tempo, a dor emocional foi tratada como algo a ser escondido um "inverno" que envergonha, que não deveria existir, que precisa ser disfarçado atrás de uma aparência de que está tudo bem. E é exatamente esse silêncio, essa cobrança por parecer sempre em primavera, que impede muitas pessoas de pedir ajuda a tempo. A psicologia analítica oferece um contraponto valioso a essa lógica: em vez de esconder a sombra, o convite é reconhecê-la, dar-lhe espaço, conversar sobre ela seja com um profissional, com alguém de confiança, ou com serviços de apoio como o CVV. Não porque a dor deva ser exibida sem limites, mas porque é o silêncio em torno dela, e não a dor em si, que costuma se tornar perigoso. Um inverno atravessado com companhia tende a ser menos ameaçador do que um inverno enfrentado sozinho e em segredo. Por isso, falar sobre estações da alma em setembro não é apenas uma coincidência poética de calendário. É um lembrete de que toda pessoa, em algum momento, atravessa seu próprio inverno e que reconhecer isso abertamente, sem vergonha, é o primeiro passo para que a primavera, quando chegar, encontre espaço para florescer de verdade. Talvez a maior lição que a primavera lá fora possa nos ensinar não seja sobre pressa, mas sobre confiança. Confiança de que, assim como a terra sabe a hora certa de deixar a semente brotar, você também carrega dentro de si um saber semelhante sobre o seu próprio tempo mesmo quando a mente insiste em duvidar disso. Setembro nos lembra, ao mesmo tempo, de duas coisas que só parecem contraditórias: que é bonito florescer, e que também é digno, necessário e corajoso admitir quando ainda se está no inverno. Nenhuma primavera verdadeira nasce da pressa ou da vergonha de não ter chegado nela ainda. Ela nasce do respeito ao processo e, muitas vezes, da coragem de pedir companhia para atravessá-lo.

Que esta estação, então, sirva menos como uma cobrança e mais como um convite: o de olhar para dentro com a mesma paciência com que se observa uma flor nascer sem pressa, mas com a certeza de que, no seu tempo, ela vai desabrochar. Se você perceber que o inverno tem durado tempo demais, até mais do que você consegue carregar sozinha, considere isso um sinal, não de fraqueza, mas de que é hora de pedir companhia nesse processo. Um profissional de psicologia ou o CVV (188), disponível 24h, podem ser esse apoio.

Publicado em

Revista Freudiana do Leste · Setembro 2026
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