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O Cuidado com um Bebê Começa Antes da Gravidez. E o Pai Faz Parte Dessa História

A forma como o corpo do pai, nos meses antes da concepção, pode deixar marcas que influenciam como esses genes vão se comportar no filho.

Ago 2026
6 min de leitura
Luciana Novaes

Por

Luciana Novaes

Nutricionista e Biomédica Esteta

Quando um casal decide ter filhos, quase todas as orientações recaem sobre a mulher: acompanhar o peso, exames de rotina, entrar com ácido fólico e outras vitaminas. As consultas começam mensais, viram quinzenais, depois semanais. Faz sentido, em parte: é o corpo dela que vai gestar.

Mas durante anos a ciência deixou de fora um personagem que também participa dessa história desde muito antes do teste positivo. O pai.

E não estou falando de genética no sentido clássico, aquele que a gente aprendeu na escola, onde os genes do pai e da mãe se combinam e pronto, está definido. Estou falando de algo mais sutil, e por isso mesmo mais interessante: a forma como o corpo do pai, nos meses antes da concepção, pode deixar marcas que influenciam como esses genes vão se comportar no filho.

Pensa comigo

O DNA é como um grande livro de receitas. Ele continua o mesmo, letra por letra, edição após edição. Mas certos hábitos funcionam como marcadores de página: eles não reescrevem a receita, só indicam quais páginas vão ser mais consultadas e quais vão ficar fechadas por mais tempo.

Isso tem nome na ciência: epigenética. E o que descobrimos nos últimos anos é que o estilo de vida do pai também deixa esse tipo de marcador.

Isso acontece, entre outros caminhos, através do próprio espermatozoide. Ele não carrega só metade dos genes do filho: carrega também informações sobre o ambiente em que aquele homem viveu nos meses anteriores à concepção, incluindo o que ele comeu, como dormiu e quanto se movimentou.

Um gene em especial, ligado ao crescimento do bebê ainda dentro do útero, é conhecido por ser herdado justamente pela via paterna, o que ajuda a explicar por que pesquisadores têm se interessado tanto pelo papel do pai nesse período que antecede a gravidez.

O que a ciência mostrou recentemente

Um grupo de pesquisadores da USP, em Ribeirão Preto, acompanhou 43 trios de pai, mãe e recém-nascido dentro de um estudo maior sobre gestação e sobrepeso.

Os pais responderam a entrevistas detalhadas sobre tudo o que haviam comido no dia anterior, repetidas em dois momentos diferentes, o que permitiu classificar a alimentação de cada um segundo o nível de processamento industrial dos alimentos. Em média, quase um terço da energia consumida por esses pais vinha de produtos ultraprocessados, com destaque para embutidos, bacon, refrigerantes e biscoitos.

O achado principal foi este: quanto maior essa fatia de ultraprocessados na dieta do pai, maiores foram o peso ao nascer, o índice ponderal e algumas dobras de gordura do bebê, medidas logo nos primeiros dias de vida.

Curiosamente, quando os pesquisadores olharam para a alimentação da mãe no início da gestação, o efeito foi o oposto: mais ultraprocessados no prato dela se associou a bebês com menor peso e comprimento ao nascer. Ou seja, o corpo materno e o corpo paterno parecem conversar com o desenvolvimento do bebê por caminhos diferentes, e não necessariamente na mesma direção.

Vale registrar que esse estudo é uma associação, não uma prova de causa e efeito. A amostra é pequena, os próprios pesquisadores destacam essa limitação, e o achado precisa ser confirmado em estudos maiores antes de virar uma certeza clínica.

Mas o dado chama atenção por um motivo simples: durante muito tempo, olhamos quase que exclusivamente para o corpo da mãe quando o assunto era a saúde metabólica do futuro bebê. Esse estudo é mais um sinal de que essa conta não fecha sozinha, e de que a ciência está apenas começando a mapear a participação do pai nesse processo.

Por que isso importa mais do que parece

Aqui está o ponto que eu mais gostaria que você guardasse. O texto não é sobre culpa. Não é sobre apontar o dedo para o pai, nem para a mãe, nem para ninguém.

Se hábitos podem influenciar como os genes se expressam, a boa notícia é que hábitos também podem mudar. Cuidar da alimentação, dormir melhor, controlar o estresse, se movimentar com regularidade: nada disso é novidade. Mas passar a enxergar esses cuidados como algo que ultrapassa o próprio corpo, que pode ecoar na geração seguinte, muda o peso que a gente dá a essas escolhas no dia a dia.

Isso vale para quem já é pai, para quem pretende ser, e, sinceramente, para qualquer pessoa que goste de entender como o corpo funciona.

O que fica de aprendizado prático

Não existe uma data mágica, um prazo fechado de três meses antes da concepção que funcione como um botão de reset. O que existe é o entendimento de que nunca é cedo demais para começar a cuidar da própria saúde, e que esse cuidado carrega consequências que vão além de quem o pratica.

A nutrição continua descobrindo, todos os dias, que escolhas pequenas produzem impactos bem maiores do que costumamos imaginar. Se você gosta de acompanhar essas descobertas traduzidas para a vida real, sigo compartilhando por aqui conteúdos sobre saúde da mulher, fertilidade, alimentação e ciência aplicada à prática clínica. Vai ser um prazer continuar essa conversa com você.

Publicado em

Leste Saúde e Negócios · Agosto 2026
Luciana Novaes

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