Quando falamos em saúde mental no trabalho, estamos falando também sobre a maneira como as pessoas convivem, se comunicam, enfrentam conflitos, recebem cobranças, encontram apoio e percebem que podem pedir ajuda. A cultura de uma organização participa dessa experiência
Edgar Schein, referência nos estudos sobre cultura organizacional, compreende a cultura como um conjunto de padrões aprendidos por um grupo ao longo de sua experiência. Esses padrões orientam a maneira como as pessoas percebem, pensam e agem dentro da organização. Em outras palavras, aquilo que se repete no cotidiano ensina.
Setembro nos convida a falar sobre saúde mental. O Setembro Amarelo amplia essa conversa e nos lembra da importância de reconhecer o sofrimento, falar sobre ele e criar espaços de acolhimento. Dentro das organizações, essa reflexão precisa alcançar as relações que construímos todos os dias.
Uma cultura de cuidado aparece em atitudes concretas. Está na escuta de uma liderança, na disponibilidade de um colega, na forma como uma equipe recebe alguém que está enfrentando uma dificuldade, na possibilidade de conversar sobre um problema e na segurança para pedir ajuda. São comportamentos simples que produzem efeitos importantes.
A Psicologia Organizacional nos mostra que as relações de trabalho influenciam diretamente a experiência das pessoas dentro das empresas. Quando existe confiança, respeito e espaço para diálogo, as pessoas conseguem participar com mais segurança. Quando predomina no medo, silêncio e insegurança, parte da energia psíquica passa a ser utilizada para proteção.
PSICÓLOGA CORPORATIVA
Amy Edmondson É nesse ponto que o conceito de segurança psicológica, desenvolvido por Amy Edmondson, contribui para essa discussão. Segurança psicológica está relacionada à percepção de que podemos falar, fazer perguntas, admitir erros e apresentar dificuldades sem medo de humilhação ou retaliação. As pessoas precisam sentir que podem falar antes que o sofrimento precise gritar.
Essa perspectiva também nos aproxima da Psicanálise. O sujeito não existe isolado das relações que estabelece. O ambiente participa da maneira como ele vive, interpreta e expressa suas experiências. No trabalho, aquilo que não encontra espaço para ser elaborado pode aparecer através do comportamento, irritabilidade, afastamento, conflitos frequentes, queda de participação, desmotivação e mudanças na forma de se relacionar.
O comportamento carrega mensagens que ainda não encontraram palavras. Por isso, falar sobre saúde mental nas empresas exige olhar para além das campanhas. O Setembro Amarelo pode abrir uma conversa importante, mas uma cultura de cuidado precisa existir durante todo o ano.
É nesse ponto que a discussão sobre os riscos psicossociais ganha relevância. A NR-1 trouxe para as organizações a necessidade de olhar com maior atenção para fatores relacionados à organização e às relações de trabalho.
Esse movimento amplia uma responsabilidade que já deveria fazer parte da gestão, compreender como o ambiente de trabalho pode contribuir para o bem-estar ou para o sofrimento das pessoas
Cuidar não significa assumir o lugar do profissional de saúde mental diante de cada sofrimento. Significa reconhecer que as relações importam, que falar sobre uma dificuldade precisa encontrar espaço, que pedir ajuda precisa ser possível e que reconhecer limites não pode representar uma ameaça à dignidade profissional.
Por isso, cuidar também é cultura. Quando uma empresa olha para seus riscos psicossociais, ela está olhando também para sua cultura, para aquilo que acontece entre as pessoas, o que é valorizado, o que é tolerado e o que permanece invisível. Essa observação exige maturidade.
Em setembro, falamos sobre prevenção, acolhimento e valorização da vida. Dentro das empresas, essa conversa pode começar com uma pergunta simples, que lugar o cuidado ocupa na cultura da nossa organização?
A resposta não estará apenas nos programas existentes. Ela estará nas relações, na maneira como escutamos, como conversamos, como lidamos com conflitos e como recebemos quem precisa de ajuda. Uma cultura de cuidado não se constrói em um único mês. Ela é formada diariamente, através de pequenas atitudes que dizem às pessoas, você pode falar, você pode pedir ajuda, você importa.
Publicado em
Revista Freudiana do Leste · Setembro 2026