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Cinthia dos Santos Psicologia Freudiana do Leste · Mai 2026

Entre o Silêncio e o Sintoma: A Positividade Tóxica

Cinthia dos Santos

Por Cinthia dos Santos

Psicóloga · Colunista Leste

Ao longo das últimas décadas, tornou-se quase um imperativo cultural sustentar uma atitude positiva diante da vida. Frases como “pense positivo” ou “vibre alto” deixaram de ser apenas conselhos pontuais e passaram a funcionar como normas implícitas de comportamento.

Mas, ao contrário do que o senso comum propaga, a insistência na positividade pode não conduzir à cura, e, em muitos casos, pode operar justamente no sentido oposto. É aqui que precisamos nos perguntar: o que estamos tentando evitar quando insistimos tanto em não sentir?

A psicanálise, desde Sigmund Freud, nos ensina que o sofrimento psíquico não é um erro a ser eliminado, mas uma via de acesso à Para Jung, não há crescimento possível sem verdade do sujeito. Em textos como Luto e confronto com a sombra.

A tentativa de manter-se Melancolia, Freud evidencia que a dor é um constantemente “positivo” pode, portanto, ser trabalho necessário, um processo que exige entendida como uma recusa desse encontro. E, ao tempo, elaboração e, sobretudo, evitar a sombra, o sujeito também evita a si reconhecimento.

Negar esse processo não o mesmo. dissolve, apenas o desloca. Aquilo que não pode ser simbolizado retorna sob a forma de Você já percebeu como, diante da dor, muitas sintoma. vezes somos rapidamente convidados a “ver o lado bom”?

Como se o sofrimento precisasse ser Quando falamos em positividade tóxica, imediatamente corrigido, como se houvesse algo estamos nos referindo a um mecanismo de errado em senti-lo. Esse movimento, embora psíquico que, embora socialmente valorizado, muitas vezes bem-intencionado, pode produzir funciona como uma defesa.

Trata-se de uma um efeito de silenciamento. A dor deixa de ser recusa ativa da experiência da dor. E aqui é escutada, inclusive por quem a sente. importante fazer uma distinção: não se trata de condenar a esperança ou o otimismo, mas Do ponto de vista psicanalítico, esse silenciamento de questionar a imposição de um estado não é neutro.

Ele tem consequências. Jacques emocional único, que não admite fissuras. Lacan afirma que o sintoma é uma forma de Afinal, como sustentar uma existência linguagem, uma tentativa do inconsciente de verdadeiramente humana sem reconhecer dizer aquilo que não encontrou lugar na fala sua dimensão trágica? consciente.

Assim, quando a positividade tóxica impede a expressão da angústia, ela não elimina o Carl Jung contribui para essa discussão ao sofrimento; ela apenas o reorganiza em outra introduzir o conceito de individuação, o forma, muitas vezes mais enigmática e processo pelo qual o sujeito se torna quem persistente. ele é, integrando aspectos conscientes e inconscientes de sua psique.

É nesse sentido que podemos afirmar: a positividade tóxica é um mecanismo de defesa covarde, não no sentido moral, mas estrutural. Ela evita o confronto com aquilo que é constitutivo da experiência humana: a falta, o desamparo, a incompletude.

Ao recusar esses elementos, o sujeito se protege momentaneamente, mas também se empobrece. Afinal, como elaborar aquilo que não pode ser reconhecido? Donald Winnicott oferece uma perspectiva interessante ao falar da importância de um ambiente suficientemente bom, que permita ao sujeito experimentar suas emoções sem ser invadido ou abandonado.

Nesse contexto, a positividade imposta pode ser entendida como uma falha ambiental , uma incapacidade de sustentar a dor do outro. Em vez de acolher, ela apressa. Em vez de escutar, ela responde. E talvez aqui esteja um ponto essencial para a nossa reflexão: o que fazemos com a dor, nossa e do outro?

Será que conseguimos sustentar o desconforto de não ter respostas imediatas? Ou recorremos rapidamente a discursos prontos que nos afastam da experiência real? A cultura contemporânea, marcada por uma lógica de desempenho e produtividade, tende a valorizar estados emocionais que favoreçam a continuidade do funcionamento.

Nesse cenário, a dor aparece como um obstáculo, algo a ser superado o mais rápido possível. Mas a psicanálise nos convida a outra postura: não a de eliminar a dor, mas a de escutá-la. E escutar, como você sabe, não é um ato passivo.

Exige presença, disponibilidade e, sobretudo, coragem. Coragem para não saber, para não resolver, para simplesmente estar. Talvez seja isso que mais falte em uma cultura que insiste em respostas rápidas: a capacidade de sustentar o tempo da experiência.

Ao final, a pergunta que permanece não é se devemos ou não ser positivos, mas: a que custo? Se a positividade serve para evitar o contato com aquilo que nos constitui, ela deixa de ser um recurso e passa a ser uma defesa.

E toda defesa, quando rígida, tem seu preço. Talvez o convite que este texto lhe faz seja simples, mas não fácil: permitir-se sentir. Não como um gesto de fraqueza, mas como uma abertura para o processo de individuação.

Porque, como nos ensina a psicanálise, não é apesar da dor que nos tornamos quem somos ,é através dela.

Publicado em Freudiana do Leste · Maio 2026
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