Desde cedo, nos ensinaram que sofrer pode ser bonito, desde que em silêncio. E, mais tarde, aprendemos a perfumar esse silêncio.
Transformamos o incômodo em rotina, o vazio em autocuidado e a dor em algo esteticamente aceitável. Crescemos assistindo histórias onde a dor não desorganiza, não revolta e não transforma, apenas embeleza.
Cinderela perde o pai, é humilhada, explorada e, ainda assim, permanece dócil. Branca de Neve é perseguida, ameaçada de morte e continua pura, incapaz de odiar. Bela vive aprisionada e transforma o cativeiro em amor.
Elas perdem tudo, casa, vínculos e segurança, mas não colapsam. Não se desorganizam emocionalmente. Não sentem raiva que transborda, nem tristeza que paralisa. Elas permanecem inteiras e belas.
Talvez o verdadeiro conto de fadas não seja o “príncipe encantado”.
Talvez seja a ideia de que alguém pode atravessar a dor sem ser atravessado por ela. Porque, na vida real, a dor atravessa. Marca. Desorganiza. Confunde.
Mas não existe equilíbrio constante. Não existe travessia sem marca. E, definitivamente, não existe felizes para sempre.
Aprendemos que ser adulta é dar conta. Dar conta do trabalho, das relações, das demandas, das expectativas. Dar conta do que sentimos, sem deixar transbordar. Funcionar, independentemente do que esteja acontecendo por dentro.
E, para isso, nos ensinaram a buscar equilíbrio. Mas o equilíbrio que nos venderam não é um estado interno, é uma imagem. Uma versão de si que não oscila, não falha, não se desorganiza. Mas existe um ruído constante por dentro.
O problema é que isso não é equilíbrio. É contenção crônica.
Equilíbrio real não é uma linha reta, é um ponto instável, sustentado por tensão. Como um corpo que se mantém de pé não porque está imóvel, mas porque ajusta, o tempo todo, pequenas quedas. É na tensão que o equilíbrio existe, não fora dela.
Mas, para sustentar essa tensão, é preciso algo que raramente nos ensinaram: coragem. Coragem para admitir o que não está funcionando. Para reconhecer o próprio cansaço. Para não sustentar, voluntariamente, dinâmicas que adoecem.
Porque, muitas vezes, não é só o sistema que nos prende, é o quanto nos adaptamos a ele. E, para não entrar em contato com isso, voltamos ao que é socialmente aceitável: cuidar da aparência, organizar a rotina, manter tudo sob controle.
Mas controle não é equilíbrio. É um medo bem administrado.
E, por trás dessa imagem de estabilidade, seguimos vivendo uma vida que não conseguimos sustentar, apenas manter. E tudo o que é negado não desaparece, apenas se desloca e se aprofunda.
Existe uma forma de dor que não grita. Ela é reorganizada. Reinterpretada. Reembalada em frases bonitas, práticas saudáveis e discursos otimistas.
Não é que não exista sofrimento, é que ele foi proibido de aparecer. E, pouco a pouco, vamos perdendo o acesso ao que realmente sentimos. Não porque deixou de existir, mas porque deixou de ser permitido. O pensamento positivo, quando usado como prática de negação, não é expansão de consciência, é contenção emocional. Uma tentativa constante de reorganizar a realidade interna para que ela caiba em algo mais suportável. Mais bonito. Mais leve. Mais aceitável.
Mas aquilo que não pode ser sentido não pode ser elaborado. E o que não é elaborado permanece ativo. Atuando por baixo das escolhas, das relações, das reações. Se repetindo, mesmo quando a narrativa diz que está tudo bem. É assim que nasce uma forma silenciosa de anestesia. Produzindo. Se relacionando. Sorrindo. Vivendo, aparentemente. E, ainda assim, tudo parece sob controle.
Assim como um anestésico não resolve a causa da dor, apenas impede que ela seja sentida, a positividade forçada cria uma distância artificial entre a pessoa e a própria experiência. Uma espécie de alívio que cobra um preço alto: afastamento de si. E, quanto mais essa lógica se repete, mais difícil se torna voltar. Por isso, a pergunta não é se você está bem. Mas o quanto do que você sente precisou ser silenciado para que você pudesse parecer estar. Vivemos um tempo em que não basta estar vivo, é preciso parecer bem. Rotinas, produtos, práticas e discursos. Tudo organizado para manter a sensação de controle, mesmo quando ele já se perdeu.
E, nesse cenário, o consumo deixa de ser apenas material. Ele se torna emocional.
Compra-se alívio. Compra-se regulação. Compra-se a sensação de que está tudo bem. Mas não está.
Porque o sintoma, esse que incomoda, insiste e não se encaixa, pode ser a única parte honesta que restou. Ele não pede para ser corrigido. Pede para ser escutado.
E talvez seja isso que mais evitamos. Porque escutar de verdade implica abrir mão da ilusão de controle. Implica reconhecer o que não está funcionando.
Por isso, antes de buscar mais equilíbrio, mais bem-estar ou mais controle, vale uma pergunta mais simples, e mais difícil: quanto custa, todos os meses, manter a imagem de que está tudo sob controle?
E, se todas as suas formas de anestesia fossem retiradas agora, os consumos, os rituais e as distrações, o que sobraria da sua estabilidade?
Talvez não seja uma resposta confortável. Mas pode ser, finalmente, uma resposta real.