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IA fez a tarefa e agora? A escola precisa ensinar autoria, não só detectar fraude

Out 2026
6 min de leitura
Daniela Baptista Monteiro da Silva

Por

Daniela Baptista

Professora de Matemática, Física e Licenciada em Pedagogia

A era digital vem transformando a forma como aprendemos, ensinamos e nos relacionamos com o conhecimento. Nesse cenário, a inteligência artificial passou a fazer parte da rotina de muitos estudantes e vem despertando diferentes opiniões quando o assunto é aprendizagem.

Mas o que a inteligência artificial tem a ver com nossos jovens? Quando pensamos em seu uso no contexto educacional, essa ferramenta precisa ser analisada com critério por responsáveis, professores e pela própria escola. A questão não está apenas em permitir ou proibir seu uso, mas em compreender quando a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem e quando pode substituir etapas importantes do processo de construção do conhecimento.

A ausência de orientação sobre o uso adequado da inteligência artificial pode fazer com que o estudante recorra à ferramenta apenas para obter respostas prontas, sem compreender o caminho percorrido para chegar até elas. Quando isso acontece, parte importante do processo de aprendizagem pode ser deixada de lado. Por isso, mais do que apresentar exemplos de usos inadequados, é necessário ensinar crianças e adolescentes a compreenderem os limites, as possibilidades e a responsabilidade envolvida no uso dessa tecnologia.

Quando a IA faz a tarefa, quem está aprendendo?

Imagine um estudante que recebe uma atividade, abre uma ferramenta de inteligência artificial, insere o enunciado e, em poucos segundos, recebe uma resposta pronta. Ele copia, entrega e conclui a tarefa. Mas será que podemos afirmar que ele aprendeu?

A resposta não está simplesmente em dizer sim ou não. Precisamos analisar o processo. Como esse estudante compreendeu o conteúdo? Ele conseguiu desenvolver um pensamento crítico sobre o assunto? Foi capaz de relacionar a resposta recebida com os pontos discutidos pelo professor em sala de aula? Saber responder a uma atividade não significa, necessariamente, compreender aquilo que está sendo apresentado.

Quando o estudante utiliza a inteligência artificial apenas para obter uma resposta pronta, pode deixar de vivenciar etapas importantes da aprendizagem, como interpretar o problema, formular hipóteses, analisar informações e construir sua própria resposta. Além disso, existe outro aspecto que precisa ser considerado: a inteligência artificial também pode apresentar informações incorretas. Se o estudante não desenvolver o hábito de questionar, comparar e verificar aquilo que recebeu, poderá reproduzir um erro acreditando que encontrou a resposta correta.

Por isso, a questão não deve ser apenas se o estudante utilizou ou não a inteligência artificial. Precisamos perguntar de que maneira essa ferramenta foi utilizada e qual foi o papel do estudante durante esse processo.

Autoria: o que significa ser autor em tempos de inteligência artificial?

A autoria é uma questão importante para o assunto que está sendo levantado nesta matéria. Logo, faço uma pergunta: se o estudante pode utilizar ferramentas para pesquisar, revisar ou organizar suas ideias, em que momento ele deixa de ser autor?

Será que o estudante que organiza suas ideias, revisa o que foi produzido, questiona uma informação e discorda de pontos equivocados realmente não pode ser considerado autor? Acredito que precisamos olhar para essa questão de outra maneira. A autoria não está necessariamente na ausência de ferramentas, mas na participação ativa do estudante na construção do que está sendo produzido.

Um estudante que analisa criticamente uma resposta, reorganiza suas ideias, identifica possíveis erros, busca outras fontes e toma decisões sobre aquilo que irá apresentar está exercitando habilidades importantes para sua aprendizagem. Ele não está apenas recebendo uma informação, mas avaliando, selecionando e atribuindo sentido ao que encontrou.

Por isso, considero que o senso crítico, a capacidade de organizar ideias e a análise criteriosa das informações são elementos fundamentais para compreender a autoria em tempos de inteligência artificial. A ferramenta pode contribuir com o processo, mas as escolhas, a compreensão e a responsabilidade pelo que será apresentado precisam continuar pertencendo ao estudante.

Nesse sentido, o papel da escola também precisa acompanhar as transformações provocadas pela inteligência artificial. Mais do que identificar se uma atividade foi produzida por uma ferramenta, é necessário criar propostas que estimulem o estudante a explicar seu raciocínio, justificar suas escolhas, comparar informações e construir respostas próprias. Afinal, uma tarefa pode estar correta e, ainda assim, não representar uma aprendizagem significativa.

Também precisamos ensinar crianças e adolescentes que utilizar inteligência artificial envolve responsabilidade. Informações pessoais, imagens, dados escolares e conteúdos de outras pessoas não devem ser compartilhados sem critérios. A tecnologia pode ser uma importante aliada da aprendizagem, desde que utilizada com orientação, consciência e objetivos claros.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “a IA fez a tarefa?”, mas “o que o estudante fez com aquilo que a IA apresentou?”. Quando ele questiona, analisa, verifica, reorganiza e constrói sua própria compreensão, a tecnologia pode ocupar um lugar de apoio no processo educativo. A escola, portanto, precisa ensinar não apenas a identificar o uso inadequado da IA, mas principalmente a pensar, escolher e assumir autoria diante dela.

Publicado em

Revista Luxvora · Agosto 2026
Daniela Baptista Monteiro da Silva

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