A gente costuma achar que a paixão, o amor e aquela vontade louca de estar perto de alguém são mistérios poéticos ou coisas do destino. Mas a verdade é que, por trás de todo esse romantismo, existe um "manual de engenharia" rodando no nosso corpo a todo vapor. Querer se conectar com outra pessoa não é só capricho ou carência; é uma necessidade biológica gravada no nosso DNA para garantir que a nossa espécie continue
aqui.
fundo,
fomos
programados para criar laços.
Para entender como essa engrenagem começa, precisamos voltar um pouco no tempo e olhar para o trabalho de John Bowlby, o psicólogo que criou a famosa Teoria do Apego. Ele percebeu que o elo entre um bebê e sua mãe (cuidador ou cuidadora) não tem a ver apenas com a busca por comida, mas sim com um instinto de sobrevivência para se manter protegido do perigo. E quando se trata de "desejo", Bowlby trouxe uma definição que ajuda a tirar o termo do mundo das nuvens e trazêlo para a realidade prática:
"[...] desejo refere-se à percepção consciente que o ser humano possui da meta fixada para um sistema ou conjunto integrado de sistemas comportamentais que já está em ação ou, pelo menos, alertado para a ação." (John Bowlby, no livro Apego: A Natureza do Vínculo [Vol. 1, p. 168. Edição: 2002]).
Traduzindo o que Bowlby quis dizer: o desejo é quando o nosso cérebro percebe que um "programa" biológico já começou a rodar no corpo para nos fazer correr atrás de um objetivo.
A Química da Busca e do Sossego Anos depois, a neurociência provou que ele estava coberto de razão. Quando você começa a desejar alguém, o seu cérebro aciona uma verdadeira fábrica de dopamina, aquele neurotransmissor da empolgação e da recompensa. É a dopamina que te dá energia, que te faz ter borboletas no estômago e cria aquele foco quase obsessivo na pessoa desejada. Ela não é o prazer do abraço em si, mas sim a faísca que te empurra para o abraço.
Só que ninguém aguenta viver em estado de alerta e paixão fulminante para sempre.
É aí que o vínculo de verdade se consolida com a chegada da ocitocina, conhecida como o "hormônio do amor e do aconchego". Enquanto a dopamina te faz buscar, a ocitocina te faz desarmar. Ela desliga os alarmes de medo e estresse do cérebro.
Sabe aquelas sensações de serenidade, segurança e paz profunda quando você deita no peito de quem ama após um dia exaustivo? É a ocitocina agindo em conjunto com as endorfinas, trazendo calmaria e aquela sensação gostosa de que "está tudo bem".
O Gabarito da Nossa Infância O mais curioso é que o nosso cérebro usa essa mesma fiação química da infância para os nossos namoros e casamentos na vida adulta. A forma como fomos cuidados quando éramos pequenos cria uma espécie de "gabarito" na nossa mente sobre como os relacionamentos funcionam:
Apego
seguro:
você
teve
infância com afeto previsível, seu cérebro aprendeu a se autorregular bem. Na vida adulta, sua arquitetura do desejo é saudável: você consegue amar e querer estar perto, mas também lida bem com a própria solidão e autonomia. Você deseja o outro, mas não depende dele para existir.
Apego ansioso: Se esse começo de vida foi instável ou marcado por sustos, a fiação
cresce
desalinhada.
Quem
ansioso vive com o alarme de medo ligado
direto,
gerando
fome
constante de atenção e e um pavor enorme de ser rejeitado. O desejo vira uma urgência de "preciso que você me aprove para eu ficar bem".
Apego evitativo: Aqui o cérebro cria uma
barreira
emocional
contra
a ser
intimidade.
medo
abandonada
frente,
pessoa
aprende a bloquear o próprio desejo de conexão, preferindo a solidão e evitando relacionamentos
profundos
para
sofrer. É o famoso "prefiro nem tentar para não me machucar".
Nosso Superpoder Biológico Olhar
para
amor
através
neurobiologia não tira a graça ou a magia do sentimento. Pelo contrário!
Mostra que nós temos o superpoder de alterar a química cerebral das pessoas que amamos e vice-versa.
E a melhor notícia de todas é que o nosso cérebro é plástico, ele aprende e muda a vida toda. Mesmo que suas primeiras experiências não tenham sido perfeitas, viver relacionamentos saudáveis e seguros na vida adulta tem o poder de acalmar as velhas feridas e reconfigurar a nossa biologia.
Assim, o desejo deixa de ser uma fuga da dor e se torna o que realmente deveria ser: a celebração de uma conexão leve, gostosa e segura.