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O Que Seu Filho Aprende Quando Você Brinca com Ele (E Você Nem Percebe)

Como brincadeiras simples ajudam o cérebro infantil a se desenvolver e fortalecem a conexão entre pais e filhos.

Ago 2026
6 min de leitura
Daniela Baptista Monteiro da Silva

Por

Daniela Baptista Monteiro da Silva

Professora de Matemática, Física e Licenciada em Pedagogia

Brincar. Sempre que ouço essa palavra, recordo momentos especiais da minha infância: as brincadeiras de pique-esconde ao anoitecer, os momentos na cozinha com minha mãe inventando receitas com cascas de legumes e os jogos em família após um longo dia de trabalho dos meus pais.

Essas lembranças permanecem vivas não pelos brinquedos que tínhamos, mas pelas experiências, pelos vínculos construídos e pelos sentimentos que aqueles momentos despertavam.

Essa reflexão nos leva a uma pergunta importante: o que uma criança realmente aprende quando brinca? Muito mais do que diversão, o brincar favorece o desenvolvimento de habilidades cognitivas, emocionais e sociais, fortalece os vínculos afetivos e proporciona experiências que contribuem para a formação da personalidade e para a aprendizagem ao longo da vida.

Além disso, pesquisas nas áreas da Educação, Psicologia e Neurociência demonstram que brincar é uma necessidade do desenvolvimento infantil, e não apenas uma forma de entretenimento. Ao brincar, a criança explora o ambiente, experimenta diferentes papéis, comunica emoções, resolve conflitos, exercita a criatividade e desenvolve competências fundamentais para sua formação integral.

É também durante as brincadeiras que a criança aprende a conviver, compartilhar, respeitar regras, lidar com frustrações e tomar decisões. Essas experiências estimulam funções cognitivas importantes, como atenção, memória, planejamento e resolução de problemas, ao mesmo tempo em que favorecem o desenvolvimento da autonomia, da imaginação e da autoestima.

Para refletir

O direito ao brincar é reconhecido internacionalmente e está previsto na Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU).

O papel do adulto na brincadeira

É no equilíbrio entre fantasia e realidade que a criança experimenta possibilidades, supera desafios, constrói significados e fortalece relações. Quando adultos participam desse processo, não apenas incentivam o desenvolvimento infantil, mas também criam memórias afetivas que acompanharão seus filhos por toda a vida.

Quando um pai, uma mãe ou outro adulto de referência participa de uma brincadeira, não está apenas oferecendo atenção à criança. Está fortalecendo vínculos afetivos, ampliando seu repertório de linguagem, estimulando a resolução de problemas e proporcionando segurança emocional. Esses momentos, muitas vezes considerados simples, transformam-se em experiências significativas para o desenvolvimento infantil e deixam marcas que podem acompanhar a criança por toda a vida.

Lev Vygotsky defendia que o desenvolvimento da criança acontece por meio das interações sociais. Para o autor, é na convivência com pais, familiares, professores e outras crianças que ela amplia sua linguagem, desenvolve o pensamento, aprende a resolver problemas e atribui significado às experiências vividas. Nesse contexto, o brincar deixa de ser apenas uma atividade recreativa e passa a constituir um importante instrumento para o desenvolvimento cognitivo e social.

Essa compreensão encontra respaldo nas pesquisas em Neurociência Cognitiva, pois as mesmas têm demonstrado que, durante as brincadeiras, diferentes regiões do cérebro são ativadas simultaneamente. Funções como atenção, memória, linguagem, planejamento, controle inibitório e flexibilidade cognitiva são constantemente estimuladas, favorecendo a formação e o fortalecimento de conexões neurais.

Além disso, quando a brincadeira acontece em um ambiente afetivamente seguro, há maior engajamento da criança, condição que favorece a aprendizagem e a consolidação das memórias.

De acordo com os 4 pilares do aprendizado do neurocientista Stanislas Dehaene, a aprendizagem depende da interação entre atenção, participação ativa, feedback e consolidação das informações. As brincadeiras reúnem naturalmente esses elementos, pois desafiam a criança a observar, tomar decisões, corrigir estratégias e construir novos conhecimentos por meio da experiência.

Para refletir

Mais do que uma atividade recreativa, brincar representa uma forma de conhecer a si mesmo e compreender o mundo.

Quais as marcas positivas que o brincar deixa na infância?

As experiências vividas durante as brincadeiras ultrapassam o momento presente e tornam-se referências importantes para o desenvolvimento da criança. É nesse contexto que são construídas memórias afetivas, fortalecidos os vínculos familiares e desenvolvidas competências que acompanharão o indivíduo ao longo da vida. Sentimentos como segurança, pertencimento, confiança e autoestima são alimentados por interações positivas estabelecidas durante esses momentos.

Sob a perspectiva de Lev Vygotsky, as experiências compartilhadas entre crianças e adultos constituem importantes oportunidades de aprendizagem, pois o conhecimento é construído nas relações sociais. A Neurociência Cognitiva complementa essa compreensão ao demonstrar que vivências permeadas por afeto, interação e desafios favorecem a consolidação de circuitos neurais relacionados à memória, à aprendizagem e à regulação emocional. Dessa forma, brincar não deixa apenas boas lembranças; deixa bases importantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

Adolescentes também brincam?

Quando pensamos em brincadeiras, é comum associá-las apenas à infância. No entanto, durante a adolescência, o brincar não desaparece; ele apenas se transforma. Jogos de estratégia, esportes, atividades artísticas, desafios intelectuais, música, teatro e experiências colaborativas continuam estimulando funções cognitivas importantes, como planejamento, pensamento crítico, criatividade, tomada de decisão e resolução de problemas.

Da mesma forma, esses momentos favorecem a convivência, fortalecem habilidades socioemocionais e ampliam o diálogo entre adolescentes e seus familiares. Embora as formas de interação mudem com o passar dos anos, a necessidade de compartilhar experiências significativas permanece.

Ao participar desses momentos, pais, mães e outros adultos de referência não estão apenas dividindo uma atividade de lazer. Estão fortalecendo vínculos afetivos, ampliando o repertório de experiências dos filhos, estimulando sua autonomia e transmitindo segurança emocional.

Muitas vezes, o que permanece na memória não é o brinquedo, o jogo ou a atividade em si, mas a presença de quem escolheu dedicar tempo para brincar, conversar, descobrir e crescer junto. É nessa convivência que a aprendizagem ganha significado e que os laços familiares se fortalecem.

Para refletir

Mais do que um momento de lazer, brincar é uma oportunidade de aprender, criar vínculos e construir memórias que acompanharão crianças e adolescentes ao longo da vida. Afinal, educar também acontece nas pequenas experiências do cotidiano, especialmente naquelas em que o afeto, a presença e o tempo compartilhado se transformam em aprendizagem.

Publicado em

Luxvora · Agosto 2026
Daniela Baptista Monteiro da Silva

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