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Polidez emocional

Quando parecer bem vira uma forma de desaparecer nas relações.

Out 2026
3 min de leitura
Cinthia dos Santos Cardoso Costa

Por

Cinthia Costa

Psicóloga

Existe uma forma de sofrimento que nem sempre é percebida porque, por fora, tudo parece estar bem. A pessoa sorri, responde “está tudo bem”, evita reclamar, não quer incomodar, compreende todo mundo, aceita situações que gostaria de recusar e, muitas vezes, coloca as necessidades dos outros à frente das suas. Ela aprendeu a ser agradável. A não dar trabalho. A não criar conflitos. Mas, aos poucos, pode começar a desaparecer dentro das próprias relações. É sobre isso que podemos chamar de polidez emocional: quando a pessoa administra tanto aquilo que sente para preservar o conforto dos outros que acaba não encontrando espaço para existir emocionalmente. Não significa que ser educado, gentil ou cuidadoso seja um problema. O ponto de atenção aparece quando a cordialidade se transforma em uma espécie de estratégia permanente para evitar rejeição, conflitos, críticas ou abandono.

“Não quero preocupar ninguém.”

“Deixa para lá.”

“Não precisa se preocupar comigo.”

“Está tudo bem.”

Quantas vezes essas frases são realmente verdade? E quantas vezes elas são uma maneira de esconder aquilo que a pessoa não consegue ou não se sente autorizada a expressar?

Um olhar pela psicanálise

Na psicanálise, podemos encontrar uma aproximação interessante com essa temática no pensamento de Donald Winnicott, especialmente quando ele aborda os conceitos de verdadeiro self e falso self. Winnicott compreendia que, diante de determinadas experiências relacionais, a pessoa pode desenvolver formas de adaptação muito intensas. Em vez de expressar espontaneamente aquilo que sente e deseja, ela passa a responder excessivamente às expectativas do ambiente. É como se, pouco a pouco, aprendesse: “Para que eu seja aceito, preciso ser aquilo que esperam de mim.”

Nesse sentido, a pessoa pode se tornar extremamente adaptada, educada, disponível e funcional. Pode aprender a perceber rapidamente o que o outro precisa e oferecer aquilo antes mesmo de perguntar a si mesma o que deseja. Por fora, parece maturidade. Por dentro, pode existir um afastamento de si.

O conceito de falso self, em Winnicott, não deve ser entendido simplesmente como uma mentira ou uma personalidade falsa. Ele pode funcionar como uma organização defensiva, uma maneira encontrada pelo sujeito para lidar com o ambiente e preservar aquilo que existe de mais espontâneo em si. Isso nos ajuda a olhar para determinados comportamentos com menos julgamento. Talvez aquela pessoa que nunca reclama não seja simplesmente “boazinha demais”. Talvez ela tenha aprendido que reclamar coloca a relação em risco. Talvez aquela pessoa que sempre diz “sim” tenha aprendido que o amor vem acompanhado da necessidade de agradar. E talvez quem parece forte o tempo todo tenha aprendido que mostrar fragilidade significa depender, e depender pode ter sido doloroso.

“Quanto de mim existe nas relações que construí?”

Existe uma diferença entre escolher ser gentil e sentir que preciso ser gentil para não perder o outro. Existe diferença entre escolher cuidar e acreditar que só tenho valor quando estou cuidando. E existe diferença entre ser compreensivo e nunca permitir que alguém precise compreender você.

A POLIDEZ COMO CONVITE À INVESTIGAÇÃO “Onde eu estou nessa relação? “O que eu sinto quando não estou agradando?” “Quem eu sou quando não preciso corresponder às expectativas de ninguém?”

Às vezes, o processo terapêutico não consiste em ensinar alguém a falar mais alto, confrontar mais ou deixar de ser gentil. Consiste em criar um espaço suficientemente seguro para que essa pessoa possa, talvez pela primeira vez, experimentar aquilo que Winnicott valorizava tanto: a possibilidade de existir de maneira mais espontânea. Por isso, talvez o objetivo não seja abandonar a polidez. É poder escolher quando ser polido sem precisar usar a própria gentileza como esconderijo.

QUANDO A ADAPTAÇÃO VIRA DESAPARECIMENTO

Por trás de uma pessoa extremamente compreensiva, pode existir alguém cansado de não ser compreendido. Por trás de quem nunca pede ajuda, pode existir alguém que aprendeu que precisar dos outros é perigoso ou inconveniente. Por trás de quem sempre diz “sim”, pode existir alguém que tem medo do que aconteceria se dissesse “não”. E é aí que precisamos mudar a pergunta. Talvez não seja simplesmente: “Por que essa pessoa não consegue se posicionar?” Talvez seja: “O que ela acredita que pode perder se começar a se posicionar?” Determinados comportamentos que parecem defeitos pessoais podem ter surgido como tentativas de proteção:

Aprendeu a agradar para ser aceita. Aprendeu a silenciar para evitar conflitos. Aprendeu a cuidar de todos para sentir que tinha valor. Aprendeu a esconder a dor para não ser um peso.

Em algum momento, esse comportamento pode ter sido necessário. O problema é quando uma estratégia que um dia protegeu começa a impedir que a pessoa viva relações mais verdadeiras. Relacionamentos saudáveis precisam de espaço para o “sim”, mas também para o “não”. Para a força, mas também para a vulnerabilidade.

Você pode ser gentil sem se abandonar. Pode compreender o outro sem invalidar a si mesma. Pode evitar conflitos sem transformar o silêncio em moradia. E pode dizer “não estou bem” sem precisar pedir desculpas por sentir

OBSERVAÇÃO PARA REFLEXÃO Existe um comportamento que parece defeito pessoal até você perceber a função que ele está tentando cumprir. E se o ponto de partida não for: “Como eliminar isso?”, mas sim: “O que esse comportamento está tentando resolver?” Talvez essa pergunta abra uma porta para compreender aquilo que antes parecia apenas um problema. E talvez, por trás de toda essa necessidade de parecer bem, exista uma pessoa esperando descobrir que também pode existir nas relações sem precisar desaparecer.

Publicado em

Revista Freudiana do Leste · Outubro 2026
Cinthia dos Santos Cardoso Costa

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