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Print não basta? Entenda como a cadeia de custódia protege a prova digital

Out 2026
5 min de leitura
Perla Baptista

Por

Perla Baptista

Perita Documentoscópica e Digital

Quem nunca fez um print de uma conversa em algum aplicativo com o objetivo de “preservar” aquele conteúdo?

É comum receber uma mensagem importante e fazer um print para garantir o registro da conversa. E a imagem pode, sim, ter relevância. Mas quando se trata de prova digital, todo o contexto deve ser levado em consideração, sendo necessário saber de onde aquele conteúdo veio, se está completo e se ele foi devidamente preservado.

Muitas vezes, a dificuldade começa quando uma conversa é apagada ou quando faltam informações sobre sua origem. Isso não invalida automaticamente um print, mas exige que sua confiabilidade seja analisada de acordo com as circunstâncias do caso.

O que torna uma prova digital confiável?

Quando falamos em prova digital precisamos compreender o problema que se quer solucionar, e para isso, podemos fazer três perguntas: o conteúdo analisado está íntegro? É possível identificar sua origem? O contexto foi preservado?

É por meio da análise de integridade que verificamos evidências de alterações relevantes na prova. Já a origem ajuda a compreender de onde veio o material analisado e como ele chegou até quem o está analisando. É entendendo o contexto, através de datas, horários, participantes, sequência de mensagens e outras informações, que conseguimos interpretar corretamente aquele conteúdo.

Uma captura de tela pode ser autêntica e, ainda assim, estar incompleta. Três mensagens isoladas, por exemplo, podem transmitir uma impressão muito diferente daquela obtida com a leitura da conversa inteira.

É por isso que a tão falada cadeia de custódia ganha tanta importância!

Mas afinal, o que é cadeia de custódia?

A cadeia de custódia registra o caminho percorrido pela evidência: como ela foi identificada, coletada, preservada, armazenada, transferida e analisada.

No processo penal, a cadeia de custódia é tratada nos arts. 158-A a 158-F do Código de Processo Penal. No meio digital, porém, há uma dificuldade adicional: arquivos podem ser copiados, convertidos ou modificados sem que a alteração seja perceptível apenas olhando para a tela.

Por isso, a rastreabilidade é tão importante. Ela ajuda a responder perguntas como: quem coletou o arquivo? De qual aparelho? Quando? De que maneira ele foi preservado? Foram feitas cópias? Quais procedimentos foram utilizados?

Em 2026, o Superior Tribunal de Justiça reuniu entendimentos relevantes sobre prova digital no âmbito penal. Na edição 281 de Jurisprudência em Teses, o tribunal registrou que integridade e auditabilidade exigem preservação da cadeia de custódia e possibilidade de exame técnico independente. Também mencionou que, havendo dúvida razoável sobre integridade e autenticidade, é necessária perícia para assegurar a confiabilidade do material e o contraditório.

Por que olhar apenas para o print pode ser insuficiente?

Imagine uma discussão em um aplicativo de mensagens. A pessoa salva três capturas de tela, apaga a conversa original e, meses depois, precisa demonstrar o que aconteceu.

Os prints não deixam necessariamente de ter valor. Mas é inevitável se questionar se a conversa está completa. Também pode não ser possível confirmar as datas e os participantes, se existem os arquivos originais, se houve cortes ou se mensagens anteriores ou posteriores podem mudar o sentido do diálogo.

Na prova digital, detalhes que parecem pequenos podem fazer diferença.

E é por isso que, quando um conteúdo pode se tornar relevante, preservar costuma ser mais seguro do que selecionar apenas aquilo que parece importante naquele momento.

O erro mais comum é tentar preservar a prova depois

Mensagens são apagadas, imagens são recortadas, arquivos são encaminhados diversas vezes e conversas inteiras dão lugar a meia dúzia de capturas de tela.

O problema surge quando, meses depois, alguém precisa reconstruir os fatos. Por isso, a lógica preventiva deve ser sempre preservar.

Ao receber uma mensagem, áudio, vídeo ou arquivo que possa ter importância jurídica, busque preservar o conteúdo original, evitando editar, recortar ou sobrescrever o material, além de manter conversas e documentos que ajudem a compreender o contexto. Não esqueça de registrar datas, horários e todas as circunstâncias relevantes.

Quando a perícia digital pode ser necessária?

A perícia pode ser importante quando existe dúvida sobre a origem, a autenticidade, a integridade ou uma possível alteração do conteúdo.

Dependendo do caso, técnicas forenses permitem examinar arquivos, dispositivos e registros, além de documentar os procedimentos utilizados durante a análise.

Um dos recursos conhecidos é o código hash, um valor matemático calculado a partir de um arquivo. Ele pode funcionar como um controle de integridade: se o conteúdo do arquivo mudar, o resultado do cálculo também muda.

Mas o hash não funciona como um “selo mágico de autenticidade”. Ele é uma ferramenta dentro de um conjunto maior de controles e não explica, sozinho, quem produziu o arquivo, em que contexto ele surgiu ou se o conteúdo representa integralmente determinado fato.

Um print de WhatsApp pode ser usado como prova?

Pode ter relevância probatória. Seu peso, porém, dependerá das circunstâncias, do contexto apresentado e das condições existentes para verificar sua origem e integridade. A análise deve ser feita caso a caso.

Como preservar uma evidência digital?

Sempre que possível, mantenha o conteúdo original, evite alterações e preserve também os elementos que ajudam a explicar seu contexto. Se o material puder influenciar uma decisão jurídica relevante, a orientação técnica ou jurídica desde o início pode evitar a perda de informações importantes.

Publicado em

Revista Inteligência Jurídica · Outubro 2026
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