Você já acordou sem vontade de levantar da cama, percebeu que aquilo que antes lhe dava prazer já não produz o mesmo efeito ou sentiu um vazio que parece não passar? Nem sempre estamos diante de um simples “dia ruim”. Às vezes, a tristeza prolongada revela que algo dentro de nós está pedindo para ser escutado. É importante diferenciar tristeza, luto e depressão. A tristeza faz parte da experiência humana e pode surgir diante de frustrações, perdas ou mudanças. O luto, por sua vez, é uma resposta à perda de alguém, de uma relação, de um projeto ou até de uma forma de vida que já não existe. Já a depressão pode envolver uma transformação mais profunda na relação da pessoa consigo mesma, com os outros e com o mundo. Na perspectiva psicanalítica, não olhamos apenas para o sintoma, mas também para aquilo que ele pode estar comunicando. Freud, em Luto e Melancolia, estabelece uma importante reflexão sobre a diferença entre o trabalho de luto e a melancolia. Na melancolia, a perda pode assumir uma dimensão inconsciente e atingir o próprio sentimento de valor do sujeito. A dor deixa de estar apenas relacionada àquilo que foi perdido e passa a se voltar contra o próprio eu.
Melanie Klein também contribui para essa compreensão ao abordar a chamada “posição depressiva”, conceito relacionado à capacidade de reconhecer sentimentos ambivalentes, perceber a importância dos vínculos e elaborar experiências de perda e culpa.
Para Klein, a elaboração dessas experiências faz parte do desenvolvimento emocional. Isso não significa que toda tristeza seja depressão, nem que devemos transformar qualquer sofrimento em diagnóstico.
Significa, sobretudo, que algumas dores precisam ser escutadas com cuidado.
Talvez a pergunta não seja apenas “como faço para deixar de ficar triste?”, mas também: “O que essa tristeza está tentando me dizer?” Quando a perda de prazer, alterações no sono ou apetite, sentimentos persistentes de culpa, inutilidade, vazio ou desesperança permanecem e começam a interferir na vida cotidiana, é importante buscar avaliação profissional.
Cuidar da saúde mental não significa eliminar a dor a qualquer custo.
Significa criar um espaço para compreendê-la, elaborá-la e, pouco a pouco, reconstruir possibilidades de existência.
Nesse mês do Setembro Amarelo, falar de saúde mental não deveria significar apenas falar sobre a morte. Precisamos falar também sobre aquilo que acontece muito antes dela: o silêncio, o isolamento, a sensação de não pertencer, a perda de sentido e a dificuldade de pedir ajuda. Talvez uma das formas mais importantes de prevenção seja justamente oferecer ao outro um espaço onde ele não precise fingir que está bem. A psicanálise nos lembra que aquilo que não encontra palavras pode encontrar outras formas de expressão. Por isso, escutar alguém é mais do que ouvir o que a pessoa diz. É estar disponível para perceber aquilo que, muitas vezes, ela ainda não consegue dizer. Nesse Setembro Amarelo, que possamos compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma possibilidade de permanecer em relação com a própria vida. Às vezes, recuperar a cor da vida começa quando conseguimos finalmente dar palavras àquilo que estava sendo vivido em silêncio.
Publicado em
Revista Freudiana do Leste · Setembro 2026