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Quando o silêncio também adoece

O que o corpo, o comportamento e o silêncio revelam quando falta espaço para falar.

Out 2026
3 min de leitura
Adriana Pereira

Por

Adriana Pereira

Psicóloga

Nas últimas colunas, falamos do que a cultura normaliza e de como ela se constrói nos gestos de cada dia. Hoje, olho para o que ela ensina as pessoas a calar. Toda equipe tem reuniões em que ninguém discorda, relatórios que nunca trazem o problema real e colegas que respondem "tudo bem" com a mesma pressa de sempre. Esse quadro costuma ser lido como harmonia, e com frequência revela um aprendizado. O silêncio é um comportamento organizacional. Ele nasce de experiências repetidas. Alguém levantou uma dúvida e foi chamado de lento, apontou uma falha e virou o problema da sala, pediu ajuda e ouviu que todos estão sobrecarregados. Depois de algumas cenas assim, a pessoa entende a regra sem que ninguém precise enunciá-la. Existe um silêncio que foi aprendido, e ele é ensinado dentro do trabalho. A psicanálise nasceu de uma observação simples,

O que não pode ser

dito continua existindo

Freud escutava pacientes cujo sofrimento não tinha explicação clara e percebeu que aquilo que era afastado da fala procurava outro caminho para se expressar.

A fala organiza a experiência.

Falar é também pedir reconhecimento, quem fala espera que alguém do outro lado receba a palavra e a leve a sério. Quando a fala é interditada, a experiência segue sem organização e pesa. Pense em tudo o que uma pessoa pode deixar de comunicar no trabalho.

"Eu não estou dando conta." "Essa situação está me fazendo mal." "Não entendi." "Tenho medo de falar." "Não concordo." "Preciso de ajuda." "Alguma coisa aqui não está funcionando."

Cada frase dessas é uma informação valiosa para a organização. Quando ela não chega, a empresa perde a chance de corrigir a rota. O ponto mais importante está antes da frase perdida. Está na conclusão que a pessoa chegou, falar não compensa. Essa conclusão diz mais sobre o ambiente do que qualquer pesquisa de clima respondida com notas altas.

Aqui o silêncio deixa de ser individual. Uma cultura se forma pelo que a empresa declara em seus valores e também pelo que as pessoas aprendem que podem ou não podem dizer. Onde quem questiona é punido, quem demonstra sofrimento é tratado como fraco e quem pede ajuda é visto como pouco comprometido, todos passam a proteger a aparência de normalidade.

Cada um observa o outro, copia o que é recompensado e evita o que é castigado. Assim o silêncio se espalha por imitação e vira um jeito de ser da casa.

O corpo participa dessa história. A clínica confirma uma experiência conhecida: nem todo sofrimento consegue virar palavra, e aquilo que fica sem palavra aparece como cansaço persistente, mudança de humor, queda de concentração, alteração no sono ou afastamento. São sinais que merecem atenção e, quando necessário, ajuda profissional. Por isso, a mudança de comportamento de alguém merece pergunta antes de julgamento.

Outubro Rosa lembra o país inteiro da importância de olhar para o corpo, perceber sinais e procurar cuidado a tempo. Esse hábito foi construído com informação, campanha e acolhimento.

Se aprendemos a olhar para o corpo

quando ele pede cuidado, por que ainda

temos tanta dificuldade para

reconhecer quando a mente pede a

Essa dificuldade aparece com força na gestão de riscos psicossociais, tema da NR-1. Ambientes com medo de falar, ausência de escuta, conflitos que nunca são elaborados, sobrecarga e pouca autonomia produzem sofrimento. Mas há algo anterior a qualquer levantamento: para identificar um risco, alguém precisa poder nomeá-lo. Uma cultura que não escuta perde a principal fonte de informação sobre si mesma. O risco existe, e ninguém o informa.

Ouvir de verdade exige atitudes concretas. Líderes que perguntam e aceitam a resposta sem defesa. Reuniões em que a discordância é tratada como contribuição. Canais em que o relato de um problema gera providência e nenhuma represália. Um gestor que admite o próprio limite ensina mais sobre segurança do que qualquer política escrita. Segurança para falar se constrói em meses de coerência e se perde em um único episódio de exposição. A pessoa aprende pelo que vê acontecer com o colega que falou.

Uma organização também revela sua cultura pelo que as pessoas conseguem dizer e pelo que aprenderam a silenciar. Basta observar o que acontece depois que alguém fala.

Todo silêncio carrega fala.

Provavelmente, é excesso de coisas que nunca encontraram espaço para ser ditas.

Cuidar é construir uma cultura onde as

pessoas não precisem adoecer para

finalmente serem escutadas.

Publicado em

Revista Freudiana do Leste · Outubro 2026
Adriana Pereira

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