NL
Portal Notícias do Leste

Seu Pai Caiu em um Golpe Digital? Saiba Como Agir Agora

Perícia digital explica o que fazer caso um familiar seja vítima de golpe online e como proteger a família.

Ago 2026
6 min de leitura
Perla Baptista

Por

Perla Baptista

Perita Documentoscópica e Digital

Os golpes digitais contra idosos vêm crescendo nos últimos anos, e esse número vai muito além das estatísticas. Estamos falando de pessoas que poderiam ser nossos pais, mães ou avós.

Criminosos exploram a confiança, a urgência e, principalmente, a falta de familiaridade de muitas pessoas com o ambiente digital.

Na minha família, isso aconteceu no mês passado. Entraram em contato com a minha mãe tentando induzi-la a realizar transações financeiras.

Como perita em Documentoscopia e Forense Digital, recebo frequentemente famílias em pânico, sem saber por onde começar. A boa notícia é que existe um caminho técnico e jurídico, mas ele precisa ser seguido rapidamente e na ordem correta.

Os golpes mais comuns contra idosos

Os criminosos adaptam constantemente suas estratégias, mas muitos golpes seguem padrões bem conhecidos. Identificá-los é a primeira camada de proteção.

O falso sequestro (ou golpe do "parente em apuros") explora o desespero da vítima. O golpista liga dizendo que um familiar está preso, sofreu um acidente ou foi sequestrado e exige um pagamento imediato, normalmente por Pix. A pressa e o choque emocional favorecem o sucesso da fraude. Por isso, oriente seus pais a sempre confirmarem a informação diretamente com o familiar antes de tomar qualquer decisão.

No golpe do falso familiar no WhatsApp, o criminoso usa a foto de um parente, afirma que trocou de número e pede dinheiro com urgência. Mudanças no jeito de escrever e a recusa em fazer uma ligação de voz ou vídeo são sinais de alerta.

Também são comuns os golpes da falsa central bancária. Nesse caso, o criminoso liga afirmando ser funcionário da instituição financeira, informa movimentações suspeitas na conta e convence a vítima a fornecer códigos de segurança, realizar transferências ou instalar aplicativos.

Outro golpe recorrente envolve falsas compras e sites fraudulentos. Anúncios com preços muito abaixo do mercado, páginas de pagamento fora de plataformas conhecidas e cobranças indevidas são alguns exemplos.

Em todos esses casos existe um elemento em comum: o golpista cria um cenário de urgência para impedir que a vítima reflita ou confirme as informações com um familiar.

O que fazer imediatamente após descobrir o golpe

Quando um golpe acontece, o desespero é natural. Ainda assim, agir rapidamente pode reduzir prejuízos e preservar provas importantes.

O primeiro passo é interromper imediatamente qualquer contato com o golpista.

Em seguida, entre em contato com o banco ou instituição financeira exclusivamente pelos canais oficiais para contestar as transações e solicitar o bloqueio de contas, cartões ou dispositivos comprometidos. Anote sempre o número do protocolo, a data, o horário e o nome do atendente.

Também é importante alterar as senhas do e-mail, dos aplicativos bancários e de qualquer outro serviço que possa ter sido comprometido.

O boletim de ocorrência deve ser registrado o mais rápido possível. Embora nem sempre resulte na identificação imediata do autor, ele formaliza o ocorrido e pode ser indispensável para futuras medidas administrativas e judiciais.

Mas existe um cuidado frequentemente negligenciado: preservar as provas da fraude. Preserve conversas, comprovantes, e-mails, arquivos recebidos e os registros das transações.

Atenção: não apague as provas

Muitas pessoas, na tentativa de "limpar" o celular, acabam apagando exatamente aquilo que poderia demonstrar como o golpe aconteceu. Conversas de WhatsApp, registros de chamadas, e-mails, comprovantes de transferência, capturas de tela, notificações bancárias e arquivos recebidos podem conter informações extremamente relevantes. Sempre que possível, evite formatar aparelhos, excluir aplicativos ou apagar mensagens antes que esses elementos sejam analisados.

Mesmo um simples print de tela pode não ser suficiente para responder perguntas importantes. Quando ele foi produzido? Houve edição? A mensagem ainda existe no aparelho? Existem metadados disponíveis? Há outros registros capazes de confirmar sua autenticidade? Essas são questões que frequentemente surgem em processos judiciais e que podem ser respondidas por uma análise técnica.

Onde entra a perícia digital?

É comum imaginar que a perícia digital só atua em grandes investigações criminais. Na prática, ela também desempenha um papel importante em casos envolvendo golpes bancários e fraudes eletrônicas.

O trabalho pericial consiste em identificar, preservar, analisar e documentar vestígios digitais por meio de metodologia técnica e procedimentos que buscam garantir a integridade das evidências e preservar sua cadeia de custódia.

A perícia pode analisar documentos eletrônicos, conversas, metadados, registros de acesso e outros vestígios digitais para reconstruir os fatos, verificar possíveis adulterações e fortalecer tecnicamente a produção da prova. Embora nem sempre seja possível identificar diretamente o autor do golpe, a análise técnica pode fortalecer significativamente a produção da prova, esclarecer a dinâmica da fraude e fornecer elementos relevantes para processos judiciais.

A proteção começa antes do golpe

Se eu pudesse deixar um conselho às famílias, seria este: nenhuma tecnologia substitui o diálogo.

Converse com seus pais e avós sobre golpes digitais. Explique que bancos não solicitam senhas por telefone, pedidos de dinheiro devem sempre ser confirmados por outro canal e situação urgente merece alguns minutos de verificação antes de qualquer decisão.

Também vale incentivar o uso da autenticação em dois fatores, manter aplicativos atualizados, evitar redes Wi-Fi públicas, limitar a exposição de informações pessoais nas redes sociais e nunca atender videochamadas de números desconhecidos em aplicativos de mensagens.

Para refletir

Quanto maior a conscientização, menores serão as chances de que criminosos encontrem vítimas vulneráveis. E, se ainda assim o golpe acontecer, agir rapidamente e preservar as evidências pode fazer toda a diferença.

Publicado em

Revista Inteligência Jurídica · Agosto 2026
Perla Baptista

Conheça a colunista

Perla Baptista

Ver perfil e todas as publicações