Dia das Mães se aproxima e, com ele, se aproxima também uma pergunta silenciosa que habita cada um de nós de maneira única, o que essa data significa para você? Viver o binômio mãe-filho é mergulhar num universo de afetos complexos e muitas vezes contraditórios.
Há quem celebre com alegria, há quem carregue o luto da mãe que partiu ou da mãe que nunca existiu fora da idealização. Há quem sorri ao pensar em ser mãe, e quem sinta um desconforto sutil ou profundo diante dessa mesma ideia.
Muitas faces, um único tema. As histórias que você vai encontrar aqui nascem das minhas vivências clínicas, de conversas com amigas e familiares. Os nomes são fictícios, as histórias não são exatamente assim, apenas fragmentos, até para proteger a identidade de quem se dispôs a falar.
Talvez elas ressoem em você, e o espaço de reflexão te traga novos caminhos. Vamos lá? Alexandra entra no consultório e me diz:. Não quero ser igual à minha mãe. Acomodo-a no sofá e peço que me fale mais sobre isso.
Com expressão triste, ela conta que sua mãe nunca viveu a própria vida foi sempre um reflexo do que esperavam dela. Com o casamento, tornou- se apenas uma extensão do que agradaria ao marido. Vive em um papel de esposa construído para o outro.
Teve filhos, mas não foi mãe; não levou os estudos a frente, não desenvolveu seu lado profissional, limitou sua existência a estar disponível para o marido. Tudo ao redor dessa cena ficou borrado, em segundo plano.
Quando entregamos a chave da nossa felicidade nas mãos do outro, aceitamos viver no casulo, sem romper, sem criar asas. Alexandra é clara: não quero viver para atender às expectativas alheias, nem enxergar apenas as necessidades do outro.
Quero atender às minhas, construir a minha história. Essa é a minha escolha, quero sair do casulo e voar como borboleta. Entre dores e delícias, olhamos para nossas mães e tecemos interpretações, idealizamos a mãe perfeita, o ideal do amor.
Maria Eugênia, uma amiga, chega para me encontrar reflexiva. Iniciamos uma conversa depois que o garçom nos deixa sozinhas à mesa. Ela pergunta: — É errado não querer ser mãe? Devolvo a pergunta. Ela então me diz: — Não me vejo nesse papel.
E ai leitor? Existe culpa em não querer ser mãe? Se sentindo mais á vontade, prossegue: — Eu não sonho em ser mãe, e pronto. Escolho não carregar a obrigação da maternidade. Não é porque sou mulher que tenho de vestir essa carapaça social.
Virei-me para ela e disse: — Fale-me mais sobre isso... — Quero alçar voos profissionais, viajar, namorar, conhecer outros lugares e culturas, correr o mundo, mas não ajudá-lo a se povoar. Nesse momento, nós duas caímos na risada.
Eu penso que não estou no consultório, mas recorro a psicanálise, e trago para nossa conversa, a clareza de ser, o reconhecimento dos próprios desejos e a coragem de vivê-los, pontos abordados frequentemente na clínica.
Aprender a tornar mais equilibrada a disputa entre o Id e o Superego mediada pelo Ego. A quarta história desta coluna é sobre ser filha e ser mãe ao mesmo tempo. Rosa chega atrasada para a sessão, bebe um gole d'água e dispara: — Às vezes a minha vontade é de não olhar mais para a minha mãe.
E vocês podem se perguntar: o que ela não quer mais ver? Há uma complexidade enorme nessa pergunta e na resposta. Não seria possível trazer, em alguns parágrafos de coluna, a história de uma vida inteira.
Mas vamos a ela: Rosa é filha de uma mãe com traços narcísicos, que só consegue enxergar as próprias necessidades. Essa mãe criou uma projeção de filha ideal, alguém que deveria existir para colocá-la num pedestal.
Não elogia, não incentiva, disputa espaço e atenção com todos os outros relacionamentos da filha. Um ciclo constante de cobranças e chantagens emocionais. Rosa retoma a questão do atraso, passou 30 minutos ao telefone com a mãe, que não parava de falar e de solicitar cuidados.
Em nenhum momento perguntou como a filha estava. Rosa se acostumou, por muito tempo, a não ser vista. A imagem no espelho era sempre a da filha ideal, aquela que jamais conseguiria alcançar. Mas, como diz o ditado: não pode chover para sempre.
Os dias de sol também chegam. Quando pergunto sobre os filhos, o rosto de Rosa se ilumina. Os olhos expressivos sorriem junto com os lábios. — Meus filhos são maravilhosos. Adoro ver a felicidade deles, apoio cada conquista.
Eu amo ser mãe. Nesse momento, queridas leitoras, vejo se iluminar diante de mim alguns dos conceitos mais preciosos da psicanálise: a associação livre, a elaboração e a quebra de ciclos. A vida não para de nos convidar, nem sempre escutamos, a psicanálise pode abrir esse Alexandra escolheu não repetir o silêncio da mãe, espaço.
Nossa sessão está confirmada? decidiu ter voz, desejos e uma história própria. Maria Eugênia teve a coragem de verbalizar sua questão, e esse já é o primeiro passo para atravessá-la, abraçou com leveza e clareza a mulher que escolheu ser, sem culpa e sem pedir permissão.
Por fim, Rosa, que por tanto tempo não foi vista, aprendeu, na sua própria maternidade, a enxergar. O ciclo foi quebrado, ela não reproduziu com os filhos o que viveu com a mãe. Foi possível trilhar um novo caminho.