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Márcia LucasSaúde Mental

O tédio que incomoda: por que as férias podem mexer com sua cabeça

Entenda por que o descanso pode gerar angústia e como usar esse desconforto a seu favor.

Por Marcia Lucas Silva

Terapeuta Integrativa Emocional · Colunista

Você esperou o ano inteiro pelas férias, mas, quando elas chegam, bate um vazio. Quando o silêncio das férias revela o que estava abafado.

A rotina diminui, os compromissos ficam mais leves, o despertador talvez não toque tão cedo, e mesmo assim algo parece fora do lugar. Em vez de sentir descanso, você sente inquietação. Em vez de alegria, vem uma sensação estranha de angústia. E, muitas vezes, junto com isso aparece a culpa: “Eu deveria estar aproveitando.” “Por que não consigo relaxar?” “Será que tem alguma coisa errada comigo?”

Não é preguiça. Não é ingratidão. E nem sempre é falta do que fazer.

Às vezes, esse incômodo é apenas um sinal de que o seu cérebro está pedindo outro tipo de cuidado.

O problema é que nós estamos cada vez menos acostumadas a ficar em silêncio conosco mesmas. Quando sobra um tempo livre, a mão corre para o celular. Quando aparece um vazio, abrimos uma rede social. Quando o silêncio incomoda, colocamos uma música, uma série, um vídeo, uma conversa ou qualquer coisa que preencha aquele espaço.

O excesso de estímulos rouba a escuta interna. Sem perceber, vamos ensinando o cérebro que todo desconforto precisa ser imediatamente anestesiado. Mas férias não são apenas ausência de trabalho. Férias também são um convite para reorganizar a mente, o corpo e as emoções. E é justamente por isso que elas podem incomodar.

Durante o ano, muitas mulheres vivem no modo automático. Resolvem problemas, cuidam da casa, do trabalho, dos filhos, da família, dos clientes, das demandas emocionais de todo mundo. Estão sempre respondendo, entregando, planejando, resolvendo e tentando dar conta.

Só que, quando as férias chegam e o barulho diminui, aquilo que estava abafado começa a aparecer.

O tédio, que parece um inimigo, muitas vezes é uma porta de entrada para a escuta interna. Ele cria espaço para perceber pensamentos, emoções, cansaços e necessidades que ficaram escondidos atrás da correria.

Quando a rotina desacelera, o cérebro começa a processar o que ficou pendente. Ideias aparecem. Emoções guardadas surgem. Perguntas internas ganham força. Algumas mulheres percebem que estão cansadas além do físico. Outras se dão conta de que estavam vivendo apenas no piloto automático. Algumas sentem tristeza, ansiedade ou irritação, mesmo sem um motivo claro.

E isso não significa que as férias estão dando errado. Significa que algo dentro de você finalmente encontrou espaço para falar.

O tédio, quando bem acolhido, pode abrir caminho para criatividade, autorreflexão e reconexão. Ele pode ajudar você a perceber o que realmente deseja, o que está pesando, o que precisa mudar e o que já não faz mais sentido continuar carregando.

Mas, quando esse tédio é mal administrado, ele pode virar angústia. Principalmente quando você tenta fugir dele o tempo todo.

Por isso, uma prática simples pode ajudar muito: durante as férias, separe dez minutos por dia para não fazer nada. Dez minutos sem estímulos ajudam a reorganizar por dentro.

Sem celular. Sem livro. Sem música. Sem televisão. Sem tentar produzir alguma coisa. Apenas fique ali.

Pode ser sentada na varanda, olhando pela janela, tomando um café com calma ou respirando em silêncio. No começo, pode parecer estranho. Talvez venha ansiedade. Talvez você sinta vontade de pegar o celular. Talvez surjam pensamentos desconfortáveis. Mas não fuja imediatamente. Observe.

Pergunte a si mesma: “O que esse incômodo está tentando me mostrar?” “Do que eu estou cansada de verdade?” “O que eu venho evitando sentir?” “Que parte de mim precisa de atenção?”

Esse pequeno exercício ajuda o cérebro a reaprender a estar presente sem depender de estímulos o tempo inteiro.

E aqui está uma dica importante: não tente preencher cada minuto das férias com atividades.

É claro que passeios, viagens, encontros e momentos de lazer são importantes. Mas o descanso verdadeiro também precisa de espaços vazios. Espaços sem obrigação. Sem desempenho. Sem necessidade de postar, provar ou transformar tudo em produtividade.

O seu cérebro precisa desse vazio para processar emoções, reorganizar ideias e recuperar energia.

Muitas mulheres empreendedoras e profissionais vivem tão acostumadas a funcionar no esforço que, quando param, sentem culpa. Como se descansar fosse perda de tempo. Como se não fazer nada fosse sinal de fraqueza. Como se valor pessoal dependesse de estar sempre útil.

Mas descanso não é abandono da vida. Descanso é manutenção da vida.

E talvez as férias estejam mostrando justamente isso: que você não precisa apenas parar o corpo. Precisa permitir que a mente desacelere, que o coração fale e que suas emoções encontrem espaço para serem ouvidas.

Então, se nas próximas férias bater um vazio, não se apresse em preencher tudo. Talvez esse tédio não esteja contra você. Talvez ele esteja tentando te devolver para você mesma.

Experimente hoje: fique dez minutos sem estímulos e observe o que aparece. Às vezes, o silêncio que incomoda é o mesmo silêncio que cura.

Fonte: Freudiana do Leste - Psicanalise · Edição Julho 2026

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