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Quando a vida manda seguir, mas algo dentro de você ainda está parado

O que permanece depois de uma perda e como reconstruir a própria identidade.

Set 2026
8 min de leitura
Danielle Linhares

Por

Danielle Linhares

Psicanalista, Palestrante e Mentora

Existe uma diferença entre passar por uma perda e conseguir, aos poucos, dar um lugar para aquilo que aconteceu. Quando uma perda significativa não encontra espaço para ser sentida e compreendida, ela pode continuar influenciando a maneira como nos relacionamos com a vida. É disso que estamos falando quando usamos a expressão luto não elaborado: uma perda importante que não conseguimos processar e que permanece repercutindo em nós, mesmo quando acreditamos que já deveríamos ter “superado” E aqui existe uma armadilha. Nós vivemos em uma cultura que tem muita pressa. ”Levanta.“ “Segue.” “Deus tem algo melhor.” “Você precisa ser forte.” “Isso já passou.” “Você precisa olhar para frente.” São frases que, muitas vezes, nascem de uma boa intenção. Mas existe uma diferença entre incentivar alguém a continuar e impedir que essa pessoa reconheça aquilo que doeu. Porque seguir em frente não significa fingir que nada aconteceu. Você não precisa transformar a sua dor em identidade. Mas também não precisa apagar a sua história para conseguir continuar. Há coisas que precisam ser reconhecidas antes de serem RESSIGNIFICADAS.

A LG U M A S PE R DA S N ÃO T Ê M F U N E R A L Pe n s e e m u m a m u l h e r q u e te rm i n o u u m re l a c i o n a m e n to. Po r fo ra , e l a co n t i n u o u . Tra ba l h o u . Cu i d o u d o s f i l h o s . S a i u co m a s a m i g a s . P u b l i co u fo to s s o rri n d o. R e co n s t r u i u a ro t i n a . Mas ninguém perguntou o que aquele relacionamento levou dela. Ta l vez e l a te n h a p e rd i d o a co n f i a n ç a . Ta l vez te n h a p e rd i d o a co ra g e m d e s e p o s i c i o n a r. Ta l vez te n h a pa s s a d o t a n to te m p o o u v i n d o q u e e ra exa g e ra d a , d i f í c i l o u i n c a pa z q u e co m e ço u a d u v i d a r d a p ró p ri a p e rce p ç ã o. A n o s d e p o i s , a l g u é m a pa re ce . U m a p e s s oa q u e a t ra t a b e m . U m a re l a ç ã o s a u d áve l co m e ç a a s e co n s t r u i r. M a s , q u a n d o p e rce b e q u e e s t á s e e nvo l ve n d o, e l a re c u a . N ã o n e ce s s a ri a m e n te p o rq u e n ã o q u e r a m a r. Ta l vez p o rq u e u m a pa r te d e l a a p re n d e u q u e s e a p rox i m a r s i g n i f i c a co rre r o ri s co d e s o f re r n ova m e n te . A p e rd a a n t i g a p o d e n ã o e s t a r d e te rm i n a n d o c a d a e s co l h a q u e e l a fa z , m a s p o d e e s t a r i n f l u e n c i a n d o a l g u m a s d e l a s . E i s s o m u d a t u d o. Po rq u e , m u i t a s veze s , p e n s a m o s q u e e s t a m o s e s co l h e n d o co m ba s e a p e n a s n o p re s e n te , q u a n d o e s t a m o s t a m b é m rea g i n d o a EXPERIÊNCIAS QUE AINDA NÃO ENCONTRARAM UM LUGAR DENTRO DE NÓS.

E SE O QUE VOCÊ PRECISA LAMENTAR NÃO FOR UMA PESSOA? Essa talvez seja uma das perguntas mais impor tantes. O que você perdeu e nunca se permitiu reconhecer ? Pode ser que você esteja de luto por uma relação que terminou. Mas pode ser também que esteja de luto pela mulher que você era antes daquela relação. Pode ser que esteja de luto por uma carreira que não aconteceu. Por uma opor tunidade que passou. Por um sonho que precisou ser adiado. Pela família que você imaginou e não teve. Pela mãe que gostaria de ter tido. Pela infância que gostaria de ter vivido. Pelo tempo que sente que perdeu. Ou até pela versão de você que um dia dançava, criava, falava, sonhava e acreditava em si mesma e que, em algum momento, foi f icando em silêncio. É aqui que o luto encontra o meu campo de trabalho: a voz e a identidade. Porque existem mulheres que não estão apenas tentando descobrir o que querem. Elas estão tentando reencontrar quem eram antes de tantas perdas, adaptações e silêncios. E , às vezes, destravar não signif ica simplesmente aprender a falar mais. SIGNIFICA DESCOBRIR O QUE DENTRO DE VOCÊ DEIXOU DE TER VOZ.

QUANDO O MEDO

NO SEU

Observe algumas situações do cotidiano. Você recebe uma oportunidade profissional, mas pensa imediatamente: “Será que eu sou capaz?” Alguém reconhece o seu trabalho e você diminui o elogio: “Imagina, não é tudo isso. ”

Você precisa se posicionar, mas prefere ficar quieta para não desagradar. Conhece alguém novo, mas começa a procurar motivos para se afastar. Tem vontade de começar um projeto, mas adia. Quer aparecer, falar, ensinar, vender ou ocupar um espaço, mas sente uma espécie de trava. Nem toda trava vem de um luto. E não devemos transformar toda dificuldade em explicação psicológica.

COMEÇA A ESCOLHER

LUGAR

E Mas vale fazer uma pergunta: Existe alguma experiência passada que ainda está ensinando você a se proteger? Porque algumas escolhas parecem escolhas, mas também podem ser formas de proteção. E proteção não é fraqueza. Em algum momento, talvez aquela defesa tenha feito sentido. O problema aparece quando uma estratégia que um dia ajudou você a sobreviver começa a impedir que você viva novas experiências.

DAR NOME É COMEÇAR A DAR UM LUGAR

O primeiro passo não é esquecer. Também não é obrigar-se a perdoar. Não é fingir que não doeu. É reconhecer. “Isso foi uma perda para mim.” “Isso me marcou.” “Eu queria que tivesse sido diferente.“ “Eu sinto falta do que imaginei que viveria.“ “Eu perdi uma parte de mim naquele processo.”

Talvez você nunca tenha dito essas frases porque acreditou que não tinha direito de sofrer. Talvez outras pessoas tenham dito que havia gente passando por coisas piores. Mas dor não funciona por comparação. Você não precisa provar que a sua perda foi grande o suficiente para merecer ser sentida.

Se foi significativo para você, merece ser olhado com cuidado. Uma prática simples pode ajudar nesse primeiro movimento: escreva uma carta para algo que você perdeu e nunca conseguiu despedir-se. Não precisa enviar. Não precisa mostrar a ninguém. Escreva o que você gostaria de ter dito. Escreva o que doeu. Escreva o que você esperava. Escreva o que precisou engolir. E, principalmente, escreva o que ficou sem voz. Não se trata de uma fórmula para resolver uma dor. É apenas uma possibilidade de começar a colocar em palavras aquilo que permaneceu guardado. VOCÊ NÃO PRECISA MORAR NAQUILO QUE PERDEU Elaborar uma perda não significa esquecer. Significa reconhecer que algo aconteceu, permitir-se entrar em contato com os sentimentos que essa experiência despertou e, pouco a pouco, construir uma relação diferente com essa história. A perda pode fazer parte da sua história sem precisar comandar o seu futuro. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de reconstruir a própria identidade: não apagando quem você foi, mas acolhendo as partes de você que ficaram pelo caminho. Existe uma mulher antes daquilo que aconteceu. Existe uma mulher que nasceu depois. E entre essas duas mulheres existe uma história que merece ser escutada.

Por isso, neste mês, eu quero deixar duas perguntas para você: Que perda você nunca se permitiu chorar? E, talvez ainda mais profunda: O que essa perda fez você acreditar sobre quem você é? Talvez a resposta revele mais do que uma dor. Talvez revele um lugar onde a sua voz ficou presa. E é justamente aí que começa o destravar. Não quando você deixa de sentir. Mas quando finalmente consegue olhar para aquilo que sentiu e dizer: “Isso aconteceu comigo. Faz parte da minha história. Mas não precisa decidir quem eu vou ser daqui para frente. ”

Se perceber que essa dor continua trazendo sofrimento significativo ou interferindo na sua vida, procure acompanhamento de um profissional de saúde mental. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidado. Porque algumas histórias precisam, antes de tudo, de um espaço seguro para serem contadas. E algumas vozes não precisam ser criadas. Precisam ser destravadas.

Publicado em

Revista Freudiana do Leste · Setembro 2026
Danielle Linhares

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