Vivemos um tempo em que iniciar um relacionamento parece cada vez mais fácil, mas sustentá-lo tornou-se um desafio. Em meio às inúmeras possibilidades de conexão, cresce também um fenômeno característico da contemporaneidade: relações intensas, marcadas por grande investimento emocional, que desaparecem sem explicações ou se mantêm em uma constante indefinição. Esse é o chamado vínculo fantasma.
Estes três termos descrevem fenômenos modernos das relações interpessoais. Eles refletem a era do amor líquido do sociólogo Zygmunt Bauman, onde a facilidade de se conectar gera laços superficiais e por vezes evitando o compromisso.
Mas muitos de vocês devem estar se perguntando sobre essas terminologias. Então vou trazer uma explicação rápida sobre cada uma delas:
Ghosting é o desaparecimento repentino e sem justificativa de uma das partes em uma relação ou conversa. O outro é completamente ignorado. É um termo muito associado ao mundo virtual, relações que se iniciam em aplicativos de relacionamento ou redes sociais. A pessoa simplesmente para de ler ou responder mensagens.
Vínculo Fantasma é o “ghosting” da vida real. É o término abrupto de um relacionamento, independentemente do estágio em que ele esteja (até mesmo em uniões estáveis), sem nenhuma explicação ou conversa de encerramento. Muitas vezes, reflete imaturidade emocional e a fuga de responsabilidades afetivas no momento em que a relação se torna concreta.
Fluido (Amor/Relação Fluida) são relações que não possuem uma forma sólida ou duradoura. Elas lembram o consumo de mercadorias: duram enquanto trazem satisfação imediata e são substituídas assim que outra oportunidade melhor aparece. O termo foi popularizado pelo sociólogo Zygmunt Bauman em sua obra clássica Amor Líquido. Evita-se o compromisso formal ou de longo prazo por medo de perder a liberdade ou novas opções.
Esses tipos de vínculos vão além do simples desaparecimento. Trata-se de uma relação em que existe sedução, troca afetiva e promessa de intimidade, mas não há disponibilidade psíquica para sustentar o encontro com o outro. O parceiro é desejado enquanto permanece como ideal; quando a relação exige comprometimento e confronta a realidade, instala-se o afastamento.
Na clínica psicanalítica, é comum encontrar sujeitos que chegam movidos pela dor de um desencontro amoroso. A fala, muitas vezes, é a mesma: “Eu nunca sou amado de verdade”. No entanto, ao escutarmos com atenção, percebemos que a busca pelo amor frequentemente encobre uma tentativa de escapar da própria solidão, do desamparo inicial.
Uma paciente, ganha voz nessas linhas, vou chamá-la de Rosana. Procurou análise depois do término de um relacionamento que durou quase um ano. Ela descrevia um parceiro extremamente presente nos momentos de alegria, comemoração, mas que desaparecia emocionalmente sempre que surgiam conversas sobre compromisso, vida a dois, ou maior proximidade. Após o rompimento, a primeira pergunta que surge é: “O que eu fiz de errado?” Aos poucos, a análise revelou que essa pergunta não dizia respeito apenas ao ex-companheiro, mas reeditava uma experiência infantil marcada pela busca constante da aprovação de uma mãe emocionalmente indisponível. O sofrimento atual atualizava um desamparo inicial, infantil.
Em outro atendimento, Marcos, de 45 anos, relatava uma sucessão de relacionamentos rápidos com diferentes mulheres, como se a partir da segunda semana, o interesse fosse diminuindo. Apaixonava-se rapidamente, idealizava, fazia planos, demonstrava interesse e, quando percebia que a parceira se envolvia, começava a sentir-se encurralado, tinha necessidade crescente de sair daquele vínculo. Vivia eternamente repetindo a procura por um relacionamento estável, mas quando se via namorando, o relacionamento não fazia mais sentido, aquele vínculo não era para ele. A partir das sessões a cortina foi se abrindo, e ele percebeu que a dificuldade não é amar, mas sustentar, suportar estar vulnerável. Estar em uma relação significava correr o risco de reviver perdas, rejeições e abandonos precoces que jamais haviam sido simbolizadas.
Esses e muitos outros casos da contemporaneidade demonstram o quanto o vínculo fantasma, esse vínculo de sombra, expressão usada por mim, representa uma repetição inconsciente. Freud mostrou que tendemos a reeditar, reviver, nas relações amorosas, conflitos que permaneceram sem elaboração, na eterna tentativa de viver outros finais, outras experiências. Assim, o outro deixa de ser encontrado em sua singularidade e passa a ocupar o lugar de personagens importantes da história psíquica do sujeito.
Aquele que vive o abandono, segue em uma luta incessante por respostas, por querer viver mais um domingo de praia, um jantar na sexta-feira, uma viagem para um destino romântico nas férias. Uma eterna projeção de viver um relacionamento ideal, sob a sua própria ótica. A ausência de encerramento machuca e mantém aquele fragmento de relação, como se pudéssemos voltar naquele momento e mudar o final. O silêncio do outro alimenta fantasias, culpa e tentativas de reconciliação, mesmo que simbólicas no escuro do quarto. O psiquismo resiste ao vazio porque ele desperta experiências primitivas de abandono e desamparo.
Relações saudáveis não são aquelas livres de conflitos, mas aquelas em que ambos conseguem permanecer presentes diante das imperfeições inevitáveis do encontro.
No fim, talvez a maior maturidade amorosa seja compreender que o amor não se prova pela intensidade do início, mas pela possibilidade de continuar existindo quando o encanto cede lugar à realidade do vínculo.
O amor não elimina a falta constitutiva do sujeito. Não existe um encontro capaz de reparar integralmente as marcas do desamparo ou de preencher vazios construídos ao longo da história psíquica. Esperar que o outro cumpra essa função é atribuir ao vínculo uma tarefa impossível.
Muitas relações adoecem justamente porque são sustentadas pela fantasia de completude. Quando o parceiro é convocado a curar feridas antigas, aliviar angústias ou garantir uma felicidade permanente, o amor deixa de ser um encontro entre dois sujeitos e passa a ser uma tentativa de curar, costurar, dar sentido aquilo que pertence à própria história.
Sob a perspectiva psicanalítica, amadurecer afetivamente implica reconhecer que existe uma dimensão da solidão que é inevitável, existem espaços que não podem ser compartilhados ou preenchidos por ninguém.
Talvez o amor mais saudável não seja aquele sem promessas de completude mas que permite que duas pessoas caminhem juntas sem exigir que uma exista para salvar a outra. A vida abre espaço para um vínculo mais livre, mais verdadeiro e mais humano.
A vida não para de nos convidar. Nem sempre escutamos, a psicanálise pode abrir esse espaço.