“Será que é isso mesmo que eu quero?” “E se eu estiver jogando tudo fora?” “Será que eu daria conta de fazer outra coisa?” “Vou conversar com alguém antes. Preciso saber o que acham.”
Talvez você já tenha feito alguma dessas perguntas diante de uma decisão importante. Mudar de profissão. Encerrar um projeto. Começar um negócio. Reposicionar a carreira. Voltar a estudar. Desistir de um objetivo que durante anos pareceu indispensável.
E talvez o mais difícil nem seja descobrir que alguma coisa deixou de fazer sentido. Às vezes, o mais difícil é confiar em si mesma o suficiente para admitir isso.
Chegar à vida adulta não significa que todas as nossas escolhas começaram nela. Muito antes de sabermos explicar quem queríamos ser, já estávamos recebendo mensagens sobre sucesso, capacidade, reconhecimento, dinheiro, profissão e sobre aquilo que faria nossa família sentir orgulho de nós.
Algumas dessas mensagens nos impulsionaram. Outras nos limitaram. E muitas passaram a fazer parte daquilo que acreditamos sobre nós mesmas.
Imagine uma menina que cresce ouvindo: “Você vai ser médica. É tão inteligente. Vai dar muito orgulho para essa família.”
Talvez ninguém tenha perguntado se ela queria ser médica. Talvez ela nem soubesse ainda. Mas, sempre que aquela possibilidade aparecia, vinham junto admiração, expectativa e orgulho.
Anos depois, essa menina se torna uma mulher e percebe que gostaria de seguir outro caminho. Só que agora a questão já não é simplesmente escolher entre duas profissões. Existe outra pergunta acontecendo por dentro:
“Quem eu vou ser se deixar de corresponder àquilo que esperavam de mim?”
É aí que uma meta pode deixar de ser apenas uma meta. Ela pode estar misturada ao pertencimento, à necessidade de aprovação, ao medo de decepcionar e à maneira como aquela mulher aprendeu a reconhecer o próprio valor.
Isso não significa procurar culpados. Significa reconhecer a importância da história.
As experiências vividas na infância e na adolescência participam profundamente da maneira como construímos nossas referências sobre valor, capacidade, pertencimento e aprovação. É nas primeiras relações que começamos a aprender o que desperta reconhecimento, o que decepciona, o que é esperado de nós e quais comportamentos parecem garantir aceitação e admiração.
A forma como uma menina foi validada, incentivada, comparada ou corrigida pode repercutir na maneira como, mais tarde, essa mulher se percebe e sustenta suas escolhas. Se durante muitos anos ela ouviu quem deveria ser, qual profissão deveria seguir ou que tipo de vida faria sua família sentir orgulho, contrariar esse roteiro na fase adulta pode despertar culpa, insegurança e medo de decepcionar.
E isso pode acontecer mesmo quando existe amor nessa família. Os pais também educam a partir da própria história, dos próprios valores, medos, expectativas e daquilo que acreditam ser o melhor para os filhos. O ponto não é determinar quem errou. É compreender o que aquela mulher aprendeu sobre si mesma dentro dessas relações e quanto desse aprendizado ainda participa das escolhas que faz hoje.
Você pode amar a sua família e, ainda assim, descobrir que a vida que imaginaram para você não é a vida que deseja viver.
Às vezes, a mulher adulta já sabe que deseja algo diferente. O conflito não está apenas em descobrir o que quer. Está em conseguir sustentar essa escolha sem sentir que, para ser fiel a si mesma, precisará decepcionar as pessoas que ama.
Isso também aparece em quem cresceu sendo constantemente comparada. “Olha como seu irmão consegue.” “Você deveria ser mais como sua prima.” “A filha de fulano já conseguiu.”
O tempo passa, mas aquela necessidade de referência externa pode continuar. Agora ela é uma mulher competente, mas precisa perguntar se os outros acham que deveria aceitar uma oportunidade. Quer mudar de profissão, mas precisa que alguém confirme que é capaz. Deseja mudar de posicionamento, começar um projeto ou seguir outro caminho, mas, antes de confiar na própria percepção, procura autorização.
Pedir opinião não é falta de autonomia. Conversar, ouvir pessoas em quem confiamos e buscar orientação pode fazer parte de uma decisão responsável. O problema começa quando a opinião do outro deixa de ser informação e passa a funcionar como permissão.
Autonomia emocional não significa não precisar de ninguém. Significa poder ouvir o outro sem entregar a ele a decisão sobre quem você deve ser.
Por isso, reconhecer uma “meta emprestada” nem sempre é tão simples quanto perguntar: “Esse sonho é meu ou da minha família?”
Às vezes, a resposta será: “Esse sonho realmente não é meu.”
Em outras, será exatamente o contrário: “Esse sonho sempre foi meu. Eu só ouvi durante tanto tempo que não era capaz que comecei a duvidar dele.”
E existe ainda outra possibilidade: aquele objetivo foi genuinamente seu durante muitos anos, mas já não combina com a mulher que você se tornou.
Uma escolha que fazia sentido aos 20 anos não precisa obrigatoriamente representar você aos 35, 40 ou 50.
Mudar de direção não apaga a mulher que você foi. Pode apenas significar que você começou a escutar a mulher que é hoje.
É comum que essa mudança venha acompanhada de culpa. “Eu investi tantos anos nisso.” “Minha família acreditou tanto em mim.” “Já cheguei até aqui.” “Será que estou desistindo?”
Mas revisar uma meta não é necessariamente fracassar ou desistir. Em alguns momentos, insistir apenas porque já caminhamos muito pode nos manter comprometidas com uma vida que já não reconhecemos como nossa.
No consultório, vejo mulheres que chegam querendo descobrir imediatamente qual é a decisão certa. Querem uma resposta que elimine a dúvida e garanta que não haverá arrependimento. Mas nem sempre o processo começa pela resposta. Muitas vezes, começa pela compreensão.
O que eu realmente desejo? O que estou tentando provar? De quem eu tenho medo de discordar? O que acredito que essa escolha dirá sobre mim? E, se ninguém precisasse aprovar minha decisão, o que eu consideraria diferente?
Um exercício pode ajudar: escolha uma meta importante da sua vida hoje e pergunte a si mesma: De quem ela nasceu? Qual valor ela protege? O que mudaria se eu não precisasse provar nada a ninguém?
Não use essas perguntas para tomar uma decisão impulsiva. Use-as para observar.
Talvez você descubra que deseja continuar exatamente onde está, mas agora por uma escolha mais consciente. Talvez perceba que precisa fazer ajustes. Ou talvez reconheça que vem sustentando um objetivo que já não representa suas necessidades, seus valores ou a vida que deseja construir.
Autonomia não é rejeitar tudo aquilo que ensinaram a você. É poder olhar para o que recebeu, reconhecer o que ainda faz sentido e se permitir escolher diferente daquilo que já não representa quem você é.
E isso exige autoconhecimento, mas também autoestima. Reconhecer o próprio valor não é apenas conseguir dizer coisas boas sobre si mesma. É desenvolver segurança para considerar seus valores, necessidades e desejos sem transformar a aprovação do outro na medida da sua capacidade.
Quando a insegurança, o medo de decepcionar ou a necessidade de validação tornam esse processo tão difícil que você já não consegue distinguir aquilo que deseja daquilo que acredita que deveria desejar, a psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender esses padrões. Não para que alguém escolha por você, mas para que você consiga participar das próprias escolhas com mais consciência e autonomia.
Talvez você não precise encontrar hoje uma resposta definitiva para o restante da sua vida.
Talvez precise começar por uma pergunta mais honesta:
Se eu não precisasse provar que sou boa o suficiente, corresponder às expectativas de ninguém ou pedir autorização para confiar em mim, quais escolhas eu sustentaria hoje?
Porque algumas metas precisam ser alcançadas. Outras precisam ser revistas. E algumas precisam apenas ser devolvidas a quem, um dia, sonhou com elas por você.
O seu valor não está em cumprir perfeitamente o roteiro que escreveram para a sua vida. Está também na possibilidade de conhecer a si mesma o suficiente para começar a escrever o seu.
Publicado em
Revista Freudiana do Leste · Outubro 2026