NL
Portal Notícias do Leste

Por Que Você Continua Escolhendo o Que Te Machuca?

Você acredita que está decidindo apenas com a razão. Mas, muitas vezes, quem escolhe primeiro são as suas experiências.

Ago 2026
6 min de leitura
Mônica Almeida

Por

Mônica Almeida

Psicóloga Clínica e Mentora de Mulheres

Você acredita que está decidindo apenas com a razão. Mas, muitas vezes, quem escolhe primeiro são as suas experiências, as crenças que construiu sobre si mesma, as dores que nunca foram compreendidas e os lugares onde aprendeu, ainda menina, o que precisava fazer para ser amada, aceita ou suficiente.

É por isso que algumas mulheres mudam de relacionamento, mudam de trabalho, mudam de cidade, mudam de fase da vida e, ainda assim, continuam vivendo sentimentos tão parecidos. Porque nem sempre é a vida que está se repetindo. Às vezes, é a forma como elas aprenderam a existir dentro das relações.

No consultório, essa é uma das perguntas que mais escuto, ainda que ela nem sempre seja feita dessa forma. As mulheres costumam chegar dizendo: "Eu não entendo por que isso sempre acontece comigo." "Eu prometi que nunca mais aceitaria isso." "Eu achei que dessa vez seria diferente."

E, quando começamos a olhar para a história daquela mulher, percebemos que muitas das escolhas que hoje parecem conscientes foram, durante muito tempo, influenciadas por aprendizados emocionais construídos muito antes da vida adulta. Não porque ela queira sofrer. Mas porque ninguém escolhe apenas com aquilo que sabe. Também escolhe com aquilo que aprendeu.

Para refletir

Você não escolhe apenas com a razão. Você escolhe também a partir da mulher que aprendeu a ser.

Uma forma de enxergar o mundo construída ao longo da vida

Ao longo da vida, vamos construindo uma forma de enxergar o mundo, os relacionamentos e, principalmente, a nós mesmas. Uma menina que cresce acreditando que precisa fazer muito para merecer amor pode tornar-se uma mulher que entrega demais e, ainda assim, sente que nunca é suficiente.

Outra, que aprendeu que conflito é sinal de rejeição, talvez passe a evitar qualquer posicionamento para preservar relações. Há também aquela que viveu tantos anos tentando corresponder às expectativas dos outros que já não consegue distinguir o que realmente deseja daquilo que aprendeu a fazer para ser aceita.

Esses movimentos nem sempre são percebidos. Pelo contrário. Na maioria das vezes, parecem absolutamente normais, porque foram repetidos durante tantos anos que passaram a ser confundidos com a própria personalidade.

Para refletir

Nem sempre repetimos porque queremos viver a mesma história. Muitas vezes repetimos porque ainda acreditamos nas mesmas verdades que um dia aprendemos sobre nós.

E esse padrão não aparece apenas nos relacionamentos amorosos. Ele atravessa diferentes papéis que a mulher ocupa ao longo da vida.

Aparece na mãe que encontra enorme dificuldade para dizer "não" ao filho porque, no fundo, teme ser rejeitada. O limite vem acompanhado de culpa e, muitas vezes, ela tenta compensar esse "não" oferecendo permissões, presentes ou cedendo ao que antes acreditava ser importante manter. Sem perceber, deixa de ocupar o lugar de autoridade para tentar garantir o lugar de quem será sempre amada. Mas educar também exige frustrar. Exige sustentar limites. Exige compreender que amor não se mede pela ausência deles.

Esse mesmo padrão aparece na colaboradora que aceita sobrecarga, evita conversas difíceis e se cala diante de situações injustas porque tem medo de desagradar. Na empreendedora que sonha em crescer, mas encontra dificuldade para liderar sua equipe, estabelecer regras, cobrar resultados ou corrigir comportamentos por receio de ser vista como dura ou perder a aprovação das pessoas.

Os cenários mudam. O funcionamento emocional continua parecido. Porque, no fundo, a pergunta permanece a mesma: "E se deixarem de gostar de mim?"

Para refletir

Quem constrói o próprio valor a partir da aprovação dos outros terá dificuldade para ocupar qualquer lugar que exija posicionamento.

Compreender não é procurar culpados

Existe um ponto, porém, que considero fundamental. Compreender de onde um comportamento veio não significa procurar culpados. Não se trata de responsabilizar os pais, a infância, um antigo relacionamento ou qualquer pessoa que tenha participado da sua história. Trata-se de compreender como essas experiências foram interpretadas por você e como continuam influenciando suas escolhas hoje.

Porque existe uma pergunta ainda mais importante do que "quem me machucou?". É esta:

Para refletir

A partir de qual versão de mim eu tenho feito minhas escolhas?

Essa pergunta muda tudo, porque devolve à mulher aquilo que muitas vezes ela perdeu ao longo da vida: o protagonismo.

Eu também precisei viver esse processo. Durante muito tempo, olhei apenas para as pessoas que estavam à minha frente. Foi somente quando comecei a compreender minha própria história que percebi que algumas expectativas, medos e reações não pertenciam apenas ao presente. A mudança começou quando deixei de perguntar apenas "por que isso acontece comigo?" e passei a perguntar "o que em mim continua sustentando esse ciclo?". Foi uma das maiores mudanças da minha vida e é uma mudança que acompanho diariamente dentro do consultório.

Identidade ou adaptação?

Existe, porém, um momento muito importante nesse processo. É quando a mulher diz: "Mas eu sempre fui assim. Eu já tentei mudar, mas não consigo. Parece que eu volto sempre para o mesmo lugar."

Essa é uma das frases que mais escuto nos atendimentos. E gosto de responder com uma pergunta: será que isso faz parte de quem você é... ou foi a forma que você aprendeu a sobreviver emocionalmente?

Porque existe uma diferença entre identidade e adaptação. Uma coisa é a sua essência. Outra são comportamentos que foram aprendidos para evitar rejeição, abandono, culpa ou a sensação de nunca ser suficiente. O problema é que, quando repetimos esses comportamentos durante muitos anos, eles deixam de parecer estratégias de sobrevivência e passam a ser confundidos com a nossa personalidade.

É justamente aí que muitas mulheres deixam de buscar ajuda. Elas acreditam que "são assim" e que nada pode mudar.

Mas quando esses padrões começam a interferir nos relacionamentos, na maternidade, na liderança, na vida profissional, nos negócios e, principalmente, na forma como essa mulher se relaciona consigo mesma, talvez não estejamos mais falando apenas de um jeito de ser. Estamos falando de um sofrimento que merece ser compreendido.

Para refletir

Nem tudo aquilo que você sempre fez faz parte de quem você é. Algumas formas de viver apenas foram aprendidas. E aquilo que foi aprendido também pode ser transformado.

Perceber é o primeiro passo. Transformar exige processo

Perceber um padrão é o primeiro passo. Transformá-lo exige um processo. Porque, sozinha, muitas vezes a mulher continua olhando para a própria história com os mesmos olhos que construíram aquele sofrimento. É exatamente por isso que buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza. É um ato de responsabilidade consigo mesma.

Vejo isso acontecer com frequência no consultório. Mulheres que chegam acreditando que "sempre foram assim" e, aos poucos, descobrem que não estavam presas à própria personalidade. Estavam presas a padrões que nunca haviam sido questionados.

E talvez seja exatamente aí que uma nova história comece. Não quando você muda quem é. Mas quando deixa de viver guiada por tudo aquilo que um dia aprendeu, sem perceber, sobre si mesma.

Publicado em

Revista Freudiana do Leste · Agosto 2026
Mônica Almeida

Conheça a colunista

Mônica Almeida

Ver perfil e todas as publicações